«1º Maio com “Motins” em Aljustrel e em Lisboa»

Posted on 7 de Maio de 2012

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Na habitual rubrica que recorda as primeiras páginas Há 50 Anos do Diário do Alentejo, a última edição deste semanário de Beja (4.05.2012) recorda as lutas do início dos anos 60 e a então “nota oficiosa do Ministério do Interior sobre os motins verificados em Aljustrel e em Lisboa e alguns noutros pontos do País”.

Quando nos dias de hoje qualquer protesto é encarrilado no controle das fileiras do sindicalismo e das lutas partidárias, e quando a excepção a essa norma da “paz social” ocorre – sendo posta em pratica a acção violenta e directa na exacta medida da “guerra social” em que vivemos – não deixa de ser interessante recordar esses episódios de sublevação e distúrbios… Como os que nas vésperas do 1º de Maio em 1962 causaram “danos nas montras de estabelecimentos comerciais e nos postes de sinalização (…) no Terreiro do Paço e algumas ruas de Lisboa”… ou em Aljustrel onde ocorre um “motim com ataque ao Posto da Guarda Nacional Republicana”, ou antes – em contraponto a essa explicação oficial – uma marcha corajosa de protesto, mas de consequências trágicas.

O episódio é recordado por Inês Fonseca no seu livro sobre as lutas dos Mineiros em Aljustrel (“trabalho, Identidade e Memórias em Aljustrel «levávamos a foice logo p’ra mina»”, 100Luz, 2007) dando conta desse desfecho das lutas e greves organizadas pelo PCP. Após a prisão de vários indivíduos nas vésperas desse 1º de Maio de 1962 “a população da vila, perante as detenções, revoltou-se e pretendeu manifestar-se no sentido de exigir a libertação das pessoas. Nessa noite, a patrulha da GNR observou a presença “de grupinhos de 2,3 ou 4 indivíduos” que andavam pelas ruas e às portas das tabernas e cafés, o que fez desconfiar que “algo de anormal se andaria preparando”. Ao ser informado do facto o Comandante da Secção da GNR, ordenou outra patrulha (armada de espingarda) e foi ele próprio pelas ruas da vila fazendo dispersar os grupos de pessoas que encontrou na rua. Mais tarde ouviram-se dois foguetes (…) “e logo as patrulhas verificaram que o povo (homens, mulheres e crianças) aparecendo em todos os sentidos, convergia para aquele campo em grande algazarra”. Ainda segundo o relatório da GNR, quando os agentes se aproximaram do local, ouviram dizer que o objectivo era libertar os que haviam sido presos e depois disso, foram atacados à pedrada, o que os levou a “abrigar-se à esquina de uma rua e dispararem dois tiros para o ar” (…). Já um dos participantes da manifestação recorda antes “que a concentração se começou a fazer pela noite, próximo do largo da feira e quando reunia já dezenas de pessoas, numa atitude que diria de espontaneidade iniciamos a marcha, sempre ordeira, descendo a Rua de Mesejana, por vezes ouviam-se alguns ditos: soltem os homens. […] A dita patrulha não esperou por nós, fez 2 tiros para o ar e retirou-se de imediato, aliviando por momentos as nossas preocupações e deu-nos mais coragem para avançar. A marcha continua e quando chegamos próximo do Centro Republicano deparámos com uma força da GNR composta por diversas praças e comandadas por um sargento, estes perfilando junto à antiga Farmácia Dias desencadeiam aí um tremendo tiroteio e marcham contra a população indefesa”. A marcante tragédia saldou-se em feridos e na morte de dois aljustrelenses.

Quando vivemos momentos em que o aumento da repressão estatal e policial é diária, quando a mentalidade policial se instala, assim como “pretende-se instituir a «tolerância zero» para lidar com todos aqueles e aquelas que não se deixam integrar no regime e se recusam ao democrático beija-mão aos poderes instituídos, que não vão lançar pétalas de rosa aos polícias em concentrações ditas «contra a violência policial»”, estes também são momentos para recordar estes episódios de outrora, guiados ontem pelos mesmos desígnios de hoje.

Enquanto as armas e os bastões continuarem (democraticamente) apontadas, não se evita o repetir das tragédias, mas evita-se a memória do que estas representam na verdade. A falta dessa  memória, como desse 1º de Maio de há 50 anos, representa também a falta da acção sem medos na rua. Hoje.

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