A que cheira o Progresso? Os ares de Sines…

Posted on 18 de Maio de 2012

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A notícia repete-se. Uma vez mais o complexo industrial de Sines empesta a costa alentejana. Como refere o PÚBLICO no passado dia 15, “a refinaria de Sines foi obrigada na passada sexta-feira a parar na sequência de um acidente que provocou uma densa e persistente nuvem de fumo que se estendeu ao longo de quilómetros.”

Mais um dos persistentes “percalços” que ditam a norma e preço imposto à saúde humana de quem aí vive, assumindo na razão do “desenvolvimento” o deliberado processo de destruição  natural  em torno da baia de Sines. Um processo de morte anunciado desta há muito a esta terra, uma vez predestinada a sua vocação como plataforma portuária e industrial, peça vital ao constante fluxo da mercadoria e do abastecimento energético, pilares do atual sistema económico. O que tal implica para uma vivência equilibrada das pessoas com o local onde vivem ou nasceram, ou o que isso significa na hecatombe do território, não interessa minimamente…O que interessa não é a poluição, mas sim anunciar que com o alargamento do canal do Panamá, “Portugal torna-se a porta de entrada na Europa“…

Como já havia relatado a Biblioteca e Observatório dos Estragos da Sociedade Globalizada, todos estes e outros desastres que ocorrem em Sines não são propriamente notícia. Ou quando o são não passam de breves notas que dão o “ar da coisa”, sem nunca questionar – como relatava um Sinense – o facto de que “o que se passa em Sines é um mistério, um mistério que pode explodir a qualquer momento” (artigo do Boletim da BOESG disponível AQUI).

Mas pior que o mau-cheiro é ausência de qualquer reação. Porque em Sines a chantagem sistémica de que temos que aguentar com tudo, se queremos ter trabalho e desenvolvimento económico, cola-se à pele e esse – o verdadeiro mau-cheiro – não desgruda…

Sem o questionar da própria lógica de fundo desse pestilento desenvolvimento industrial, o problema tem vindo a ser colocado pela esquerda bloquista, e denunciado desde há uns meses para cá, como no blog Estação de Sines que reiterava um problema que permanece “sem que alguém ouse levantar a voz e agir no sentido de resolver alguma coisa. Quem o deveria fazer em primeiro lugar seria a Câmara Municipal porém esta está completamente manietada e comprometida com as Empresas do Complexo fazendo parte do problema e não da solução (…) Junto da população o sentimento não é muito diferente, é regra geral associada a criação de emprego ao complexo e este à poluição, o que indirectamente associa o emprego à poluição e faz com que a aceitem como uma coisa normal retirando-lhe o peso negativo (…). De uma forma simples é feita uma troca de saúde por trabalho o que não faz sentido. O negócio não é justo nem compensa porque temos direito a ter emprego e saúde sem considerar que nos fazem um favor. (…) o ar na Cidade de Sines está irrespirável, seria normal a revolta e a indignação. Porque não é assim?” (Sines – Trocar Saúde por Trabalho)

E pelo que vale, é deste modo importante divulgar o convite do Movimento Cívico «Todos Contra a Poluição» (Aqui e Aqui), no dia 25 de Maio (Sexta-feira), no largo Poeta Bocage (Largo do Castelo, Sines) às 18h30 “todos os amigos e interessados na causa que nos move contra os maus cheiros a estarem presentes numa reunião Geral, aberta à população no seu todo e de certa forma a participarem com ideias novas, debatendo o futuro, próximas iniciativas e medidas a tomar!

E por fim, nesse âmbito, é ainda merecedor de se ler o texto de José Carlos Guinote “Gaseamento em Curso” de 29 de Janeiro passado no já referido blog Estação de Sines:

Dia após dia, semana após semana, a diferentes horas do dia e da noite, Sines é, em permanência, invadido, por um cheiro pestilento vindo da plataforma industrial. Com uma severidade crescente uma vez que já nem janelas e portas fechadas nos permitem escapar  ao pivete que nos provoca dores de cabeça e que nos arruinará a prazo a saúde. A chaminé da Petrogal, com a sua nuvem de gases brancos recortada no escuro da noite, é o nosso indicador de referência. Quando a nuvem se dobra do alto da chaminé  sobre a cidade temos que correr a fechar tudo e, nem mesmo isso é suficiente.

Estamos sitiados nas nossas casas, sujeitos aos gaseamentos noturnos, e cada vez mais diurnos, que a prazo nos liquidarão. Aliás, nos liquidam porque a verdade é que se morre de cancro nesta terra e nesta zona como não acontece em parte nenhuma do nosso país. Claro que não há dados. Pois não, o senhor António, o senhor João, o nosso primo, o nosso tio, os nossos amigos que morreram precocemente, os nossos conhecidos que estão doentes com cancro, cada um de nós, não somos dados das estatísticas que ninguém quer recolher e tratar, não somos dados dos estudos epidemiológicos que nenhum poder quis ou quer  fazer. Há trinta anos que a lei do mais forte domina contra os direitos dos mais fracos, de nós todos. A lei do mais forte é a lei das empresas poluidoras e dos seus lacaios ao nível nacional e local com particular destaque e nojo para os lacaios locais.

Um movimento de cidadãos começou a organizar a partir do Facebook um movimento contra a poluição. Tomaram algumas iniciativas meritórias, mas cometeram um erro crasso: permitiram que os políticos coniventes com os poluidores,  com destaque para o politicamente sinistro Presidente da Câmara, integrassem essa comissão e a dominassem.  O Presidente da Câmara de Sines representa politicamente, ao nível local, os interesses das grandes empresas poluidoras e daqueles que ao longo de décadas têm agredido o direito à saúde dos cidadãos. Irá fazer tudo o que estiver ao seu alcance para canibalizar o movimento,  atrofiando-o. Os interesses que defende obrigam-no a isso. 

São patéticos os seus apelos ao combate à poluição ao mesmo tempo que no pasquim da propaganda municipal manda publicar artigos em que revela ter descoberto que a poluição é causada pela ETAR. A mesma reiterada aldrabice que desde há anos as empresas industriais, vêm divulgando. Não se via nada assim desde a revelação do terceiro segredo de Fátima.

Com Manuel Coelho a integrar o movimento a desmobilização e a demissão serão o resultado esperado até porque os cidadãos que se poderiam mobilizar para esta luta  não depositam confiança nas suas intenções e identificam-no com os interesses dos agressores.

A Câmara se estivesse empenhada – o que  Manuel Coelho quer é o que a Câmara faz já que a sua maioria representa hoje seis dos sete eleitos que se transformaram em criados políticos do “querido líder” – tinha meios próprios para lutar contra este crime ambiental e este genocídio contra os cidadãos aqui residentes. Não o faz porque não tem nisso qualquer interesse. Saí a terreiro apenas para controlar  e desmobilizar o movimento. Ou para dar conta de mais um estudo que inevitavelmente acabará no saco do lixo e será mais tarde substituído por outro que  manterá a malta entretida e dará conta do grande empenho do “nosso querido líder”.  Estudos anestesiantes muito eficazes como se tem visto …como anestésicos.

Quando andava de braço dado com o seu querido camarada Sócrates a lançar a primeira pedra de “grandes investimentos estratégicos para Sines” e aquele prometia fazer de Sines uma plataforma petrolífera de nível europeu  devem ter limpado o rabo às preocupações ambientais e às medidas de prevenção dos acréscimos de poluição resultantes do forte investimento então realizado, com um aumento relevante da capacidade industrial instalada.

Espero que o movimento possa lutar contra a poluição e contra os que a promovem em detrimento do direito á saúde e ao ambiente a que todos nós temos direito. Espero que o movimento se liberte de tão funestas companhias. Que sentido fará ter, num movimento desta natureza, o senhor Amorim e a senhora Dos Santos? Que sentido fará ter quem ao nível local tem representado e defendido politicamente os interesses dessas pessoas? Se não for capaz de dar esse passo de se libertar o movimento acabará sem glória entontecido por um par de promessas avulsas e sem consequências futuras.

Sines é uma nódoa na democracia portuguesa. É  o local em que os cidadãos são meticulosamente envenenados apenas porque quem o faz pode fazê-lo  e quer fazê-lo, porque os seus lucros sobem na razão directa desse envenenamento. É o ponto máximo da indiferença social, da cobardia política, da traição dos interesses dos eleitores pelos que elegeram, do desprezo absoluto pela saúde dos cidadãos. Sines é o expoente de uma radical falta de ética social de um pequeno grupo de capitalistas, dos seus criados políticos nacionais e dos seus pequenos, e vorazes, caciques locais, que colocam a vida dos cidadãos desta terra, o seu direito à saúde e ao ambiente, vários pontos abaixo do mais pequeno euro que possam lucrar.

Sines é a negação da democracia.»

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