Rebeldes e Selvagens

Posted on 23 de Maio de 2012

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Charles Reeve escreveu recentemente sobre esse enigma português que nos assola e aos inquietos desespera: “como e porquê uma sociedade de tal modo atacada, com uma violência tão mortífera, se resigna a si mesmo a este ponto? Como é que se deixa morrer sem resistência, sem reação? (…) Aparentemente, a sociedade portuguesa funciona segundo as normas do mundo moderno. Como em qualquer democracia representativa, os sindicatos existem, opinam, tomam posição, são reconhecidos e manifestam os seus acordos e desacordos. Após o país ter sido devolvido às profundezas da recessão, as greves gerais foram bem sucedidas…e parecia algo. Mas o que parecia ao início um primeiro sinal de avivamento depressa se mostrou como mais uma manifestação suplementar de imobilismo, reforçando mesmo o fatalismo, tal como essas maçadoras cerimónias se encontram abaixo da violência do ataque capitalista”.

Ou dito de outro modo, pelo autor que citamos livremente a partir daqui /daqui (e que já esteve á conversa com no nº3 da  ALAMBIQUE): “o que explica e autoriza este arrogante silêncio é a resignação, é a passividade e a fatalidade com que este mesmo povo aceita a porrada que lhe é dada pelos que são responsáveis pelo sistema e pelas suas dificuldades intrínsecas. Quanto mais o agridem, mais o bom povo português dá sinais de simpatia e de submissão! Aos políticos da casa também agrada este silêncio. O país cultiva o low profile, o não fazer ondas, tentar passar entre os pingos da chuva.”

É por isso que sair á rua – como visto no sábado passado – pondo em causa o eterno respeitinho à autoridade, o desalinhar dos cortejos partidários e do controle e freios dessa esquerda que se apresenta como o placebo do sistema, é o único sinal a dar contra esses que são os verdadeiros “violentos”: a violência e o aperto em vivemos e que dependerá sempre do medo inquisitorial que nos impõe o dia a dia, nos limites e na repressão que crescem à medida que nos apercebemos que apenas com uma verdadeira ofensiva podemos dar a volta e dar-lhes o troco que merecem.

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