À conversa sobre Gonçalves Correia

Posted on 23 de Junho de 2012

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Rui Vasco Silva, testemunha no seu blog algumas reflexões sobre a vida e obra de António Gonçalves Correia, naquilo que «deve ser muito mais do que um exercício académico ou um exercício meritório de homenagem a uma figura do passado (…) [deve] impulsionar a acção relativa a um presente que oprime e incapacita os seres de realizar a sua plena felicidade. (…) [e em que] a questão todavia é saber como catapultá-los para a rua, para a intervenção de cada um de nós no seio das comunidades em que nos integramos, na luta que quotidianamente assumimos pela transformação do mundo.»

Assumindo uma ressalva inicial como não anarquista, mais à frente expressa a par de uma posição estatista de Engels, o trineto de António Gonçalves Correia aponta como a «principal limitação da sua mensagem: a ideia de que pela via da consciencialização dos homens – independentemente da sua classe de origem – se poderá chegar a um mundo novo». Partilho que esse percurso de índole tolstoiano seja limitador e que por esse mesmo motivo ele tenha sido em parte um percurso paralelo do anarquismo português. Mas contrapondo a isso poderá ser notado que a singularidade de Gonçalves Correia, reside na ação oposta que quis imprimir à mera “consciencialização dos homens”, aplicando o que Rui Vasco Silva refere ser a «vontade de fazer, de concretizar na prática os ideais que o influenciavam profundamente». E nesse sentido, temos de nos perguntar a nós mesmos quais foram realmente as limitações da sua mensagem? Não fosse a comuna da Luz decapitada pelo Sidonismo, o que teria germinado?

Duas importantes chamadas de atenção são destacadas no pensamento e pratica do anarquista alentejano neste texto: Os aspetos da educação das Comunas da Luz e Comuna Clarão são preciosos, resgatando e recordando o peso e importância da herança de Ferrer i Guardia da Escola Moderna. Pois como é dito «é fundamental lutar por uma educação diferente, integral, revolucionária, ecológica, anti-racista e anti-discriminatória, valorizadora do diferente. Uma escola que se afaste da ditadura dos resultados, das avaliações, da “exigência” centrada na autoridade do professor e não na responsabilidade dos alunos, de acordo com regras e normas por si definidos.»

O segundo aspeto reside na questão do relacionamento entre o homem e os restantes animais não-humanos. O que «encontra no momento presente especial importância, por razões diversas, que vão dos problemas ambientais agravados pela existência de enormes produções agro-pecuárias ou pelo consumo absolutamente desproporcionado de carnes e produtos de origem animal  (…) aos “espectáculos” assentes sobre o sofrimento de animais (…) Um aspecto revelador da “civilização” em que nos tornámos, [que] ajuda-nos a compreender também o estilo de relação entre pares (entre seres humanos) que fomos mantendo e alimentando ao longo do tempo: relações de exploração, de violência e submissão, de exercício da força de uns sobre a fragilidade (as fragilidades diversas) de outros.»

Já o terceiro aspeto assinalado “na tentativa de interpretar o pensamento e a obra de Gonçalves Correia à luz do tempo em que (sobre) vivemos”, refere-se à sua “visão de desenvolvimento que, assentando numa ideia de primazia da felicidade humana, se afastou em alguns aspectos das tendências primitivistas e anti-tecnológicas do anarquismo”. Essa afirmação suscita alguns comentários.

Desde logo não posso deixar de concordar que esse terceiro aspecto “diz respeito à questão fundamental do tempo presente: a do papel do ser humano no seio da sociedade e do tempo que é o seu no mundo.” A pergunta obvia que é feita é ainda a pergunta do dia: “Deverá o homem submeter a sua vida, a sua única vida, à economia e ao desenvolvimento? Ou pelo contrário, deve ser a economia e novas formas de desenvolvimento a servirem os interesses e as necessidades do homem?”. E a resposta mais óbvia ainda é a constatação de que ”tem sido o homem a sacrificar-se perante uma ideia de desenvolvimento, crescimento e consumo que não serve os interesses da maioria, antes alimentando de forma selvagem, patética e desumana uma minoria cada vez mais poderosa.”

Aí Rui Vasco Silva insere “a questão do Estado e da Autoridade”, o que poderia servir – embora possa não ter sido essa a intenção – para realçar como essa tem sido o alvo de combate mais caro ao anarquismo em detrimento da questão da economia, precisamente ao invés de Engels e do marxismo. Este aspeto da economia (em tudo similar à conversa que houve na Feira do Livro Anarquista em Lisboa) cruza-se com a crítica ao progresso/desenvolvimento e às propostas de decrescimento que hoje em dia marcam a abordagem anarquista, com uma «série de preocupações de enorme relevância, que devem ser equacionadas e estudadas» como referido.

No seguimento dessas preocupações é apontada essa «terceira singularidade do pensamento de Gonçalves Correia, no seio do anarquismo libertário português: a valorização da máquina como instrumento de libertação do homem». Não veria tal como uma singularidade. Pois o correto contraponto  estabelecido entre Gonçalves Correia e o ludismo, como «movimento operário de resistência à tecnologia que via na máquina uma concorrente do homem» nunca teve lugar. Não teve que saiba uma verdadeira contraposição e expressão em Portugal, onde na força motriz que era o anarco-sindicalismo não se vislumbram ludismos…

Ao responder ao “luddismo” dos nossos dias («representado em algumas das suas franjas [anarquismo], fundamentalmente ligadas a determinadas visões sobre ecologia por um lado e primitivismo por outro»), é tomado como exemplo o apelo de Gonçalves Correia «à importância da máquina na libertação do homem face a tarefas penosas e prolongadas, identificou na tecnologia a capacidade (real) de libertar o homem de jornadas de trabalho imensas, intermináveis. E ao fazê-lo distanciou-se de perspectivas anti-tecnológicas que muitos poderiam supor existirem no seu pensamento.»

Essa resposta resulta, a meu ver, numa visão redutora ou desconhecedora das perspectivas anti-tecnológicas ou “contra o desenvolvimento”. Desde já refira-se que não há uma, nem duas, mas várias perspetivas que vão das teorias do decrescimento e modelos de transição, às posições primitivistas, para de repente situar duas posições em si mesmas distantes mas partem da critica ao desenvolvimento. É pois um erro reduzir a critica à máquina numa caricatura seja ao primitivista, seja à anti-tecnologia. O lugar comum fica assim definido tout court, sem explicação.

Por isso gostaria de não só dar conta do pequeno folheto “Dar Troco. Resposta a Lugares Comuns Sobre o Crescimento e Progresso”, recentemente editado pela BOESG, como recordar a definição de Tecnologia de David Watson, publicada em português em “Contra a Megamáquina” no Coice de Mula nº7). Importante porque uma coisa será Gonçalves Correia opor-se em seu tempo – como certo o faria – ao ludismo postulando uma ideia de desenvolvimento com a máquina; outra coisa é não ter em conta o conceito de máquina em causa e tal como ele é hoje perspetivado por algumas correntes do anarquismo, segundo o qual “a máquina veicula hoje valores sociais”, em boa parte aqueles a que se opunha Gonçalves Correia. Daí a importância de não confundir conceitos e épocas, e muito menos de reduzir a postura anti-tecnologia em causa a uma caricatura simplória de destruidores de máquinas. Diz David Watson (edição espanhola aqui):

«definir tecnologia como uma qualquer diligência técnica ou artefacto, considerá-la o meio pelo qual os seres humanos fazem tudo, desde apanhar fruta a lançar misseis para o espaço, é esvaziar de sentido este vocábulo. Semelhante ideologia não perceciona as impressionantes alterações que têm ocorrido na existência; parte do princípio de que uma sociedade em que quase todas as esferas do esforço humano são moldadas pela tecnologia é essencialmente a mesma coisa que uma sociedade com uma técnica equilibrada e limitada, enquadrada na vasta constelação da vida.

Tal como o capital tem sido simplisticamente confundido com estrutura industrial e riqueza acumulada, quando a sua relevância consiste em ser um conjunto de relações sociais, também a tecnologia foi reduzida a uma simples imagem de máquinas e ferramentas, quando na realidade ela se tornou um complexo de relações sociais – uma «teia de instrumentalização» e dessa forma, um modo qualitativamente diferente de dominação. A tecnologia é o capital, o triunfo do inorgânico, a humanidade separada dos seus instrumentos e universalmente dependente do dispositivo tecnológico. É a sujeição e mecanização da vida, a proletarização universal da humanidade e o aniquilamento da comunidade.»

Filipe Nunes

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