Água

Posted on 7 de Julho de 2012

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A decisão da Autarquia de Ferreira do Alentejo em cortar o abastecimento de água potável a cerca de 15 montes isolados neste concelho – até aqui regularmente abastecidos por tratores cisterna  (noticias aqui e aqui e reportagem SIC) diz muito mais do que a insensibilidade dessa gente, habituada a ir de férias para o Algarve para deixar ao calor o seu compadre alentejano, nesta bela torreira que é sua. Na verdade o que nos dizem é que todos temos direito público a essa soleira (se dela não a quisermos transformar livremente em energia, claro está…), mas não à frescura da água.

A água não é de todos: a água é “o” negócio global do século XXI e afinal, nessa crescente corrida ao lucro que é o processo de privatização das águas (do abastecimento público, assim como da drenagem e tratamento de águas residuais), basicamente só falta mesmo concluir o processo no Baixo Alentejo.

O negar da água dos autarcas de Ferreira do Alentejo a quem não a tem para beber, resulta da mesma lógica da privatização da água: nada se dá, tudo se vende. Há aqui o problema da mera gestão economicista e da discussão dos modelos que os serviços públicos devem sustentar. Preocupações que na arena politica à esquerda tem sido levantadas em defesa da Água Pública, como é exemplo do PCP no presente caso de Ferreira,  por “comissões de utentes” designadas para o efeito,  ou no trabalho mais continuado de algumas associações. Mas como aflorava a Associação Água Pública, já há quase dez anos atrás, o que nos esquecemos é o facto de água ser talvez o vínculo mais forte entre as pessoas e a natureza. Uma questão que surge sempre secundarizada – e a titulo ecológico meramente decorativa – pelos problemas de “gestão”.

O problema em causa deve ser pois entendido para lá da visão economicista.  É obvio que ninguém pelos seus reduzidos recursos deve ser discriminado no acesso a um bem essencial, pelo que choca a displicência de Ferreira do Alentejo, mas o principal problema continua a ser o facto de todos, pobres ou ricos, encararem o uso de água como se não houvesse amanhã (literalmente neste caso).

A verdade é que falta hoje a água aos referidos montes alentejanos, não por causa da câmara, mas porque a agricultura pesticida desde a horta ao grande olival continua a contaminar todos os dias que passam estes limitados recursos freáticos que afloram nos poços desses montes. Quando estes foram erguidos de pedra e adobe, já lá antes estava a água que lhes ditou o lugar e o sustento da horta. Quando a moderna agricultura e olivicultura operou a milagrosa operação da produtividade pelo uso generalizado dos pesticidas, quando as exigências poluentes da produção animal ocuparam os campos, não deveríamos mostrar surpresa na fatura que cobram hoje pela água imprópria para consumo, pelo veneno nos nossos pratos e pelos cancros que alastram. A verdadeira defesa de uma água pública ocorrerá apenas quando retomado esse vínculo entre as pessoas e a natureza.

Foto: Pedro Barros (contracapa Alambique #2)

Sobre o corte de água  em Ferreira do Alentejo:

[ver Reportagem SIC 06.07.2012]

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