Comunidades Mineiras

Posted on 22 de Julho de 2012

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Tal como já havíamos aqui falado, vivemos aqui no Baixo Alentejo naquilo que se chamam de comunidades mineiras. De novo o falamos em artigo de opinião na ultima edição do semanário Diário do Alentejo (20.07.2012).

Nessa mesma edição, a propósito das visitas da alta finança governamental às minas da Somincor em  Neves-Corvo (“O ministro Álvaro Pereira e o presidente da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal vieram ao Alentejo fazer a festa”) questiona Paulo Barriga em seu editorial “em que estado ficará a região do Campo Branco depois de terminar a corrida ao eldorado“. Uma dúvida que recorda a constatação elementar de que “sempre que se extrai uma riqueza do subsolo, empobrece-se”, a par desta situação de evidente letargia em se desconhece, nestas “terras de monoeconomia”, “o que será de Castro Verde e Almodôvar depois de 2029?”… As dúvidas na matéria somam-se ainda ao desconhecimento de “quais os incentivos financeiros e os benefícios fiscais que a empresa canadiana Lunding Mining, proprietária da Somincor, vai beneficiar com esta operação”, numa actividade que não está aqui em crise, mas que não deixará de colher os benefícios próprias das medidas contra a crise que para tal foi criada. E por isso deixa em aberto, nesta edição do Diário do Alentejo, o dirigente  sindical dos Trabalhadores da Industria Mineira – regressado na marcha de Madrid – o cenário de reivindicações à supressão de 50% no trabalho suplementar e a outras medidas que advirão das alterações à lei laboral.

Hoje, olhando para as lutas mineiras de Asturias e Leon, não faltam motivos ou desculpas para ficar-se adormecido na paz social negociada.  Está tudo e toda a gente há tempo demais avisada para o que se passa. Só não vê quem quer ver. Olha-se aqui para o lado e  leia-se o comunicado do Sindicato de Oficios Varios de León (CNT-AIT), ou acompanha-se o desenrolar dos mineiros asturianos como sejam nalguns dos seguintes videos.

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Opinião (Diário do Alentejo 20.07.2012)

« Entusiasma ver a luta dos mineiros nas Astúrias. Também aqui “a Mina” permanece como o
sustento no dia-a-dia de Castro Verde, Aljustrel etc. Mas entre estas “comunidades mineiras”
das montanhas e da planície, há hoje mineiros e mineiros. Da mesma forma que os mineiros
asturianos nos mostram que há lutas de trabalhadores… e lutas de trabalhadores.
Primeira diferença. Nas Astúrias está em causa o carvão e um plano de desmantelamento
desse sector energético que implicou um conjunto de ajudas à sua reconversão. Mas em hora
de canalizar o dinheiro da crise para os Bancos dá-se uma diminuição de mais de 50% nessas
ajudas. O fim das minas anunciado ressurge como o abismo para essas populações. Por cá é o
cobre e zinco, e pelo contrário, prometem-se abrir mais minas. No campo o cobre vai-se indo,
e a China e outros “emergentes” aceleram na máquina do progresso a todo o custo.
Segunda diferença. O peso mítico da luta mineira. Nas Astúrias a memória de 1934 e outras
lutas, não se fica pela evocação histórica. O presente ultrapassa o passado, pois não o
esqueceu. Mas hoje no Alentejo o passado parece ter enterrado o presente. Em 1922 os
mineiros de Aljustrel recebiam a solidariedade de outros trabalhadores, mitigando a fome
dos seus filhos, e em 2012 os mineiros ingleses anunciam o fundo de apoio aos mineiros
asturianos. De que solidariedade poderíamos esperar hoje dos mineiros alentejanos? E
sobretudo de que lutas?
Nas Astúrias os rostos tapados, o fogo e as pedras são a força da luta, pondo de lado o
sindicalismo de palanque e da lei e ordem que de tanto conhecermos já enjoa. É real o
imaginário combativo do mineiro asturiano, num sindicalismo de base e em comunidade,
participativo e não reduzido á mera delegação sindical que distribuiu bandeiras vermelhas
para desfilar na avenida. O mineiro da montanha luta pelo pão em cima da mesa, o mineiro da
planície cala e come o que por agora há em abundância.
Mas não esqueçamos o que lhes é comum: a vida destas “comunidades mineiras” é ditada
pelos apetites da indústria voraz, e só perante o fim anunciado da mesma se questiona como
as mesmas determinam a capacidade de autonomia dessas vidas. Na firme luta asturiana
joga-se em parte o reivindicar dessa autonomia, enfrentando as decisões da economia
mundial. E é essa também a questão eternamente adiada do mineiro alentejano, cuja “paz
social” negociada entre sindicatos e multinacionais é subscrita e enraizada nas espectativas
de um estilo de vida, onde os “prémios de produção” ou as “horas extras” são as principais
reivindicações dos mineiros. O que se passará se lhes for ditada a “reconversão”, o fim das
minas? Filipe Nunes»

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