A Arder

Posted on 10 de Agosto de 2012

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No Baixo Alentejo fumegavam no ar, no final do mês passado, os incêndios vindos dos cerros algarvios do Caldeirão. A serra ardia e a gente da serra, que não é nem do Algarve, nem do Alentejo, mas da Serra, sentia que se lhes queimava a alma. Nos dias que foram passando, as chamas aumentavam na mesma medida criminosa que aumentava a descoordenação ao combate. Votados ao esquecimento do litoral turístico, as populações da serra colhiam a prova final de que a desertificação humana que os rodeia no dia a dia, fruto das mudanças de rumo na vida social e da subsistência económica que décadas antes as levaram a descer às praias betuminosas do desenvolvimento e do consumo fácil, resultava agora numa desertificação de terra queimada. Condenando uma paisagem, tida como desprovida de gente e de outros seres vivos, cuja milenar dinâmica e interação entre o homem e natureza não encaixa na lógica urgente do lucro imediato e na reapropriação desse imenso território pelas fileiras depredadoras da economia, como seja a reincidente indústria do eucalipto.

Da gente da serra, pois não é por ser montanheira que anda de olhos tapados, aflorava de imediato nas conversas nubladas pelo fogo e pela mágoa, as coincidências de arderem hectares e hectares de terras compradas pouco tempo antes pela Portucel, ou como a oportuna faísca que ardera a serra poderia iluminar o futuro da indústria da celulose perante a acalorada proposta do Governo que pretende que a área ardida deixe de ter que ser reflorestada com árvores da mesma espécie, podendo ser replantada com eucaliptos. Esse decreto-lei permitirá a arborização de pequenas parcelas até 5 hectares e a rearborização de parcelas até 10 hectares, «com qualquer espécie vegetal» mediante uma simples comunicação prévia ao Instituto da Conservação da Natureza e Floresta, cuja falta de resposta em 30 dias implica o seu deferimento tácito. Neste cenário e em terra queimada, entre a falta de forças em recomeçar tudo de novo, sentida naturalmente na maioria destas pessoas nos seus finais de vida, e na ausência dos filhos e herdeiros, a indústria do eucalipto poderá dar por fim o ultimo golpe onde vier a assentar (mais informação aqui e aqui).

Com este novo passo legislativo, em nome dessa retoma agrícola e florestal assente no princípio que condenou a paisagem do sul português – e de ruralidade no seu todo – que é a de servir o proprietário absentista e as monoproduções industrializadas, cairá por terra a herança e em boa parte a lição dessa gente da serra. Cairá por terra a evidente riqueza da cortiça – pé de meia dessas pessoas e da economia nacional – como dos recursos silvestres característicos do Baixo Alentejo e Serra Algarvia (alfarroba, cogumelos, ervas silvestres, medronho e plantas aromáticas e medicinais), anunciados em programas de desenvolvimento local e regional e que continuaremos a ouvir falar como promessas ou puxando o lustre a um jogo de forças económicas viciadas à partida. Da mesma forma perderá terreno o contraponto da oferta ao que chegam de fora em busca de um território natural e humano único, vivido nas diferentes escalas que oscilam entre o barranco de uma ribeira e a contemplação dos seus cerros enrugados, face à invasão massificada do turismo algarvio (como é exemplo a recente investida em Vale do Freixo, Loulé).

Antes que tudo arda, o que urge resgatar, é antes de mais a Serra e a milenar vida que a caracterizou, que como descreveu Cláudio Torres, se enredou em “todo um emaranhado de pequenas comunidades que escapam à dependência directa desses senhores e que conseguem refugiar-se num velho sistema autonómico de sobrevivência”.

Filipe Nunes

[ Foto: Pedro Barros ]

 

Texto publicado hoje – 10 de Agosto – no espaço de opinião do Diário do Alentejo

 

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