Inspira: respira, inspira e cala-te?

Posted on 11 de Agosto de 2012

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A luta da aldeia de Cachão, em Mirandela, faz-nos recordar pelas mesmas razões nauseantes a situação vivida desde há dois anos na aldeia das Fortes, hoje alastrada por inteiro ao seu concelho de Ferreira do Alentejo. Ambas aldeias partilham o esgoto lucrativo que afunila nas fábricas de refinação do bagaço de azeitona desde a indústria da olivicultura, que hoje impera na planície alentejana e se estende ao planalto transmontano sem que as condições ambientais e de saúde sejam devidamente atendidas nessa fileira da agro-indústria tida como o supra-sumo do desenvolvimento.

A norte, como relata a TSF, trata-se de uma luta antiga (ver aqui) para os cerca de 50 habitantes de Cachão, que se manifestaram contra as fábricas de refinação do bagaço de azeitona, invadindo as instalações da Soduol e a Mirapapel e acusando-as de porem em risco a saúde dos habitantes. Conforme relatou à imprensa Pedro Fonseca da Assembleia Municipal de Mirandela: “estamos perante um crime de saúde pública (…) o Ministério do Ambiente concluiu em 2010 que se trata de 16 poluentes neurotóxicos com potencial cancerígeno”. Por essa razão “a população resolveu juntar-se e invadimos as instalações e mostramos o que estava escondido há muitos anos” nessas duas unidades industriais. As quais de acordo com essas mesmas declarações “são empresas que não respeitam a legislação e que foram mandadas encerrar pelo Ministério do Ambiente e estão a trabalhar em pleno”, pelo que conclui se “o delegado de saúde de Mirandela alheia-se a esta situação e o engenheiro Branco [presidente da Autarquia de Mirandela] deve estar a fazer alguma confusão entre Cachão e Caixão”. “Ele deve querer pôr as pessoas do Cachão no caixão”. Por isso a população conclui que “se não tomarem providências nós iremos tomar medidas mais drásticas”.

Já a Sul o “incómodo” acomodou-se.  E não são poucos os exemplos. Sejam os ares do Alvito, Cuba, Vidigueira, Beja ou Viana do Alentejo rasgados pelas nuvens poluentes provenientes da queima e secagem do bagaço de azeitona, na fábrica da União de Cooperativas Agrícolas do Sul (Ucasul) em Alvito, seja o igual cheiro nauseabundo sentido na população de Fortes (Ferreira do Alentejo). Aí os protestos ficaram-se até agora pelo queixume, e mesmo esse já esteve bem mais acesso como em 2010 (ver reportagem RTP aqui). Já os cheiros da unidade de transformação de bagaço continuaram tão fortes como o nome da terra.

Fortes, uma pequena aldeia à qual se pode contar a mesma história de sempre em nome do desenvolvimento trazido à terra com pompa e circunstância. Este pequeno lugar à vista da autoestrada para o Algarve crescera ele próprio desde 1968 com a fábrica de concentrado de tomate Tomsil, que acabou por ser comprada pelo grupo Alcides Branco no final de 2007 (empresário que é também dirigente do PS em Santa Maria da Feira). O investimento na Tomsil, para lá do tomate, previa então a capacidade para transformar 100 mil toneladas de bagaço de azeitona por ano, posicionando-o como o “terceiro maior produtor” de bagaço de azeitona na Península Ibérica. Através da unidade, o bagaço, oriundo de lagares do Alentejo, depois de transformado era encaminhado como combustível térmico na central de produção de energia eléctrica a partir de biomassa do grupo em Vila Velha de Rodão.

Já há dois anos atrás se falava nas Fortes em como «o ar se tornou insuportável, existem pessoas com problemas respiratórios e irritações nos olhos, as casas e as viaturas ficam cobertas por um resíduo oleoso e cinzas e não se pode estender roupa, porque fica a cheirar mal». E tão pouco o resolveu o sistema de tratamento de fumos. Os problemas continuaram para a vida dos habitantes a meias com uma fábrica que lhes dá o cheiro e fumo do bagaço de azeitona misturado com o azedo do parque de estacionamento dos camiões que transportam tomate.

E o que feito da promessa inicial de “até 30 postos de trabalho”, a juntar aos 17 então existentes na Tomsil ? Logo se deu que dos que já lá estavam alguns foram mandados embora e o aumento de trabalho ficou-se como já até aí acontecia, pelos episódios sazonais da campanha de verão do tomate. E hoje? Hoje a aldeia apenas aguarda, entre os cheiros que persistem, da falência provável da fábrica cuja empregabilidade se reduz a meia dúzia de trabalhadores e ninguém da terra. Quanto ao tomate, este foi abandonado depois de em 2010 a sua produção ter sido marcada pela derrama de detritos para a ribeira de Asseiceira, correndo negras as águas para a Ribeira do Roxo e daí para o Sado. Abandonado o tomate, que durante décadas susteve a localidade, ficou-se o bagaço nauseabundo da azeitona. E o que prometia ser o grande investimento ibérico, não vingou, pois cedo os lagares da região tomaram em suas mãos a transformação do mesmo e a concorrência veio em força com a unidade de transformação inaugurada entre Ferreira do Alentejo e Odivelas na fábrica da Casa Alta – Sociedade Transformadora de Bagaços Lda (Odivelas), apostada a aí mesmo inaugurar uma central de produção de biomassa para o biodiesel (a nova fileira tunning da agricultura que augura que havemos de plantar para que os carros andem).

E o resultado disso tudo é que os cheiros deixaram apenas de ser exclusivo das Fortes. Na vila de Ferreira do Alentejo, sopra o odor do progresso da olivicultura vindo de todo o lado. Seja das Fortes, da Herdade do Sobrado, da Cartoil ou da Ucasul de Alvito. Esse progresso significou efectivamente ter Ferreira do Alentejo se tornado o maior transformador de azeitona e o maior produtor de azeite do país, beneficiando dos sistemas de rega do Alqueva. Entre 2000 e 2010 o concelho triplicou a sua área de olival, situando-se em mais de 5800 hectares os quais por aí não pararam. Anualmente serão transformados no concelho o equivalente a 56,1 milhões de euros de azeitona por ano (dados daqui). O emprego na ordem das escassas centenas e sobretudo sazonal fala mais alto que as preocupações aqui expressas.

A saúde e o ambiente são o novo preço a pagar por qualquer promessa de desenvolvimento, que se exige açambarcadora dos solos e da água da região, isto é do futuro e da saúde de quem aqui vive. Falamos de cancros e outras “maleitas” para quem ainda não percebeu. Ainda há quem duvide disso? Pois que continue a inspirar: respire, inspire e cale-se. Que engula o caroço da azeitona.

[Foto daqui}

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