Horror Turístico

Posted on 17 de Agosto de 2012

4


Neste “querido mês de Agosto” estamos em plena época de férias. Altura devidamente calendarizada para enganar a rotina do ano, para logo a retomar com as baterias recarregadas. Desejada época do ano, em que a latência do sol nos leva a mergulhar nas águas e caminhos de lazer e deste modo a mergulhar coletivamente entre os banhos de outros tantos… É então que a desejada fuga se encontra com o horror turístico. Torna-se difícil e penoso acabar por reconhecer o desencanto da evasão e da almejada pausa, muito menos a nós próprios, mas uma coisa é descansar o espírito, outra coisa é engana-lo e mante-lo em modo de pausa. Não posso por isso deixar de refletir em plena época veraneante nessa condição que nos faz a nós todos turistas.

Não se trata de ridicularizar gratuitamente o turista e aquilo em que se tornaram as nossas férias, mas de tentar entender o grande logro a que vamos, quando genuinamente partimos do desejo do escape, que em ultima instância mais não é do que procurar a felicidade de sermos livres. O que a partir daí nos leva inevitavelmente a olhar para a que dizem ser a grande vocação nacional, e a grande aposta para o Alentejo: o Turismo.

A condição de turista – ultrapassando o receio em nos assumirmos como tal, apelidando sobranceiramente apenas “os de fora” – carrega em si o reconhecimento da mais plena vitória desta nossa civilização industrializada e urbanizada. Desta sociedade capitalista e de consumo desenfreado. Nascida outrora dos ímpetos românticos da burguesia viajante em busca do imaginário exótico, da natureza virgem, do folclore e do passado, essas mesmas imagens continuam a servir como diretrizes do turismo em todo o mundo e a guiar a sua força motriz, que é basicamente o desejo humano de libertar-se do seu quotidiano (olha-se aos títulos da imprensa de viagens: Fugas, Evasões…).

Semelhantes desejos aspiram a ser perigosos, pelo que cedo foram disciplinados no quadro maquinal que enforma o mundo laboral, recarregando-nos como máquinas e com tempo contado, como sobretudo cedo se revelaram extremamente proveitosos ao sistema que move essa fuga. Nesse quadro nasceu a industria do turismo, de que mais não somos do que consumidores e colaboradores simultaneamente. E mais nenhuma outra indústria conseguiu a proeza de tornar o seu objeto de oferta o inverso do objetivo daquele que o procura: o turismo é o reflexo fiel da sociedade de que o turista pretende evadir-se.

Para ordenar e lucrar com esse ímpeto de evasão, o turismo definiu-se como um produto empacotado de coisas e experiências a ver, que à semelhança da diversidade da realidade internáutica não para de aumentar. E desde a invenção do guia turístico a oferta do lazer e das férias tornou-se cada vez mais condicionada à produção em série e à lógica das massas (o que a sopinha de massas humanas das nossas praias bem o testemunha). Foi essa “turistificação” do território que remeteu, face às potencialidades ambientais únicas de Portugal, este país à condição de empregados de mesa ou à tendência geriátrica e acolhedora dos reformados da Europa do norte.

Nesse mesmo cenário as nossas férias rapidamente correm o risco de equivalerem a uma experiência de quartel, refletindo como nenhuma outro momento, a orgânica consumista e totalitária da sociedade: é a mobilização geral decretada em Agosto, são os quarteis generais – do parque de campismo, do festival, ao resort de luxo – movendo compassadamente os movimentos da tropa em sandálias, a hábitos e comportamentos que de tão pré-determinados que estão impedem a transgressão para lá dos espaços estandardizados do verão e sobretudo a subversão desse valor tão inerente ao espirito de férias: o tempo “livre”.

A “compensação terapêutica” em que se tornaram as férias para o turista – o adoentado e stressado desta sociedade – nada mais produz que um álbum de fotografias repleto no facebook, aferindo o dever cumprido ou galanteando cada vez mais as proezas alcançadas nas programadas aventuras “radicais” junto da natureza “pura” e do ambiente ecológico, mas asseado. E a grande conquista das férias parece jogar-se mais no relato difundido nas redes sociais impessoais, em jeito de competição com aqueles sortudos que vendem as suas viagens aos media e ao mercado de ilusão de que vive afinal de contas o turismo.

É nesses termos em que o meu espirito se vê inquietado com o horror turístico, quando na verdade só pedia descanso. Pior mesmo é que vivendo naquele que é oficialmente determinado como terra de potencial turístico – neste Alentejo já ali, do litoral atlântico ao litoral do grande lago – todo o resto do ano passarei a ver como esse futuro inegável cai nas mãos da indústria turística que nada mais vende senão aquilo que contribui a destruir. Toda a terra compete pelo turista, tudo sendo consumido, da natureza ao humano. Qualquer vila é um museu, qualquer campo um parque de atrações. E quanto mais autêntica, mais atrativa é ao discurso folclorisado do turismo. Por isso ele é cada vez mais eco, de natureza cada vez mais natural, cada vez mais rural e cada vez mais típico e tradicional. Este sossego afinal vale ouro, e não faltam vendilhões por uma meia dúzia abonada de promessas de empregos.

Devolvo por isso à sensação de horror de tamanha e bem real perspetiva, a noção que é de fuga e de evasão que se alimenta o turista. Desafia-lo a procurar uma fuga permanente, jogar-se-á certamente para lá deste “querido mês de agosto”, mas sobretudo potenciará a que este regresse por cá para vivenciar o seu espaço e tempo de férias de outro modo, compatibilizando o que pode ser um outro Alentejo, não o da oferta turística, mas passo a passo, o da partilha e, então sim, de descoberta e da merecida pausa.

Filipe Nunes

(Publicado hoje, 17 de Agosto, em espaço de Opinião no Diário do Alentejo)

Anúncios
Posted in: Impressões..