Contra o olival intensivo

Posted on 28 de Setembro de 2012

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Na Capital do Azeite, Ferreira do Alentejo celebrou o olival intensivo e as razões dessa proclamação como símbolo do progresso regional com o Encontro Nacional do Setor do Azeite. Precisamente pelas razões que bem me recordo levaram em 2009 ao fim do Monte do Carvalheiro, referência local e pioneira em Portugal na agricultura biológica. O fim da Cooperativa Terra de Vida, Agricultura e Ecologia, levou José Pedro Raposo a abandonar o Monte após cinco gerações na sua família. Em conversa à revista Alambique (1), referia indignado como “quando se passa ao pé de um olival desses e se vê uma máquina que pesa 20 toneladas e que apanha 800 toneladas por hora, ou não sei o quê, as pessoas ficam fascinadas com aquilo e tudo o resto esquece, é “ai que interessante. Que bonito, o progresso, a civilização”… e o resto passou.” O “resto” cobra a sua factura no ambiente, na água, na oferta alimentar e na saúde pública. Na sobrevivência das gentes e da Terra. Deixo-vos com dois exemplos sempre recentes pelo qual não celebro o olival intensivo.

Em primeiro lugar o esgoto lucrativo que afunila nas fábricas de refinação do bagaço de azeitona sem que as condições ambientais e de saúde sejam devidamente atendidas nesse fim de fila da agro-indústria. Um “incómodo” nauseabundo a que nos acomodamos?  Os ares do Alvito, Cuba, Vidigueira, Beja ou Viana são rasgados pelas nuvens poluentes da queima na fábrica da UCASUL em Alvito, à semelhança dos cheiros doentios que levaram a população de Fortes (Ferreira do Alentejo) a protestar em 2010, denunciando como o ar se tornou insuportável. Protestos que se ficaram pelo queixume quando esse mal deixou de ser exclusivo das Fortes. Em Ferreira do Alentejo, sopra de todo o lado o odor do progresso. Seja da Herdade do Sobrado, da Cartoil, ou da fábrica da Casa Alta em Odivelas, apostada em inaugurar uma central de produção de biomassa para o biodiesel (a nova fileira tunning da agricultura que augura que havemos de cultivar e fazer uma cruz na boca para que os carros andem).

Fico pois curioso com a dose de perfume que terá usado a Ministra da Agricultura, Mar, Ambiente e  Ordenamento do Território, Assunção Cristas, e todos os demais empresários nesse Encontro nacional… (2)

O segundo exemplo está na água que hoje falta nos montes alentejanos, porque os pesticidas continuam a contaminar os limitados recursos freáticos. Quando estes foram erguidos de pedra e adobe, já lá antes estava a água que lhes ditou o lugar e o sustento. Quando a moderna agricultura e olivicultura operou, no afã da produtividade, o uso generalizado dos pesticidas, o que temos em troca é água imprópria para consumo, veneno nos nossos pratos e cancros que alastram.

Na véspera do Encontro Nacional do Setor do Azeite, o Público noticiava “Olival intensivo afecta água consumida em Ferreira do Alentejo”, apontando a elevada percentagem de fitofármacos usados nos 7000 hectares de olivais intensivos e super-intensivos. Directamente sobre os aquíferos que abastecem a população. O próprio grupo de trabalho do Ministério da Agricultura sugeria a necessidade de uma opção clara “entre racionalidade económica privada e a preservação dos bens públicos”. Esse tema não constou no programa do Encontro.

“Lucro, mais lucro, custe à terra o que custar. Por isso o que esta gente precisa é não ter ideias, se tivessem ideias próprias estes indivíduos nem estavam lá”, como dizia então José Pedro Raposo. O que está em causa é essa ideia de desenvolvimento e progresso. Recupero as palavras ouvidas no Monte do Carvalheiro: “As pessoas sabem que este modelo económico e agrícola, não é para eles. A maior parte dos pequenos agricultores e jovens que se instalaram com a minha idade, hoje em dia, ou porque os pais não tiveram coragem de deixar a exploração mais cedo e agora arrependem-se disso porque já não é possível, são pedreiros, fazem de tudo menos trabalhar a terra. Eles sabem que ao tu teres de pagar uma renda automaticamente só por teres um regadio, ou te modernizas e entras neste sistema da competitividade – sempre essa coisa de crescimento económico e competitividade – ou entras nisso ou então tens de desistir. E claro que és aglutinado por um grupo maior.”

Precisamente por isso o modelo do olival intensivo e da agricultura é segundo o secretário-geral da Confederação de Agricultores de Portugal: “ter uma exploração agrícola a produzir e a ganhar dinheiro como ter uma fábrica com tecnologia muito apurada”. Como tal, António Barreto e Carlos Noéme, presidente do Instituto Superior de Agronomia, defendem que os apoios apenas sejam destinados a explorações com valores de produção superiores a 100 mil euros, deixando de fora as restantes 97% de explorações de pequena e média produção. (3)

Um desenvolvimento iludido pela­­­ empregabilidade precária nessas fábricas a céu aberto. E com a corda à garganta não é conveniente recordar que por essa agro-indústria pagamos com a saúde e o ambiente. Com a crise ditar insaciáveis metas de crescimento (a definição de progresso), impõem-se como solução exclusiva as grandes explorações. Mas metas inversas de decrescimento, onde o agricultor não é um mero operador de máquinas e tecnologias, mas alguém vinculado à terra que sabe respeitar, proporcionará desta vez sim motivos para celebrar. E nesse Encontro cada um trará o seu azeite à açorda.

Filipe Nunes

Artigo publicado hoje – 28/09 – em crónica de opinião no Diario do Alentejo

(1) Monte do Carvalheiro: Ruralidade e Civilização… (entrevista com José Pedro Raposo) [F. Nunes] na Alambique #2 de 2009 disponivel AQUI

(2) Lapso da crónica. Embora anunciado a Ministra não compareceu (em sua vez veio o Secretário de Estado da Agricultura, José Diogo Albuquerque)… No dia anterior a Ministra fora alvo de um protesto  em Santarém quando um indivíduo arremessou um ovo na sua direção (que acertou infelizmente ao lado) enquanto discursava na sessão de apresentação do Prémio Agricultura 2012 – Escolha Portugal.

(3) ÁLVARO SOARES DE MELO e ANTÓNIO ALVES VIEIRA, “As pequenas e médias explorações agrícolas são imprescindíveis”, Le Monde Diplomatique, Agosto 2012

(4) Imagem retirada daqui

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