Apontamentos sobre o presente em movimento

Posted on 2 de Outubro de 2012

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…/ Os movimentos dos Indignados fizeram o seu caminho, com diferenças e contradições, segundo as condições específicas de cada sociedade. Estão repletos de contradições e ambiguidades, mas são diferentes daqueles que vivemos anteriormente. Nos sítios onde a sua dinâmica foi mais forte, onde o movimento conseguiu ocupar duravelmente o espaço público, em Espanha e nos Estados Unidos, as divergências acabaram por tomar uma forma organizada, entre reformistas e radicais. Progressivamente, esta última tendência, oposta ao eleitoralismo e à negociação, investiu a sua energia e a sua criatividade em acções directas, como o apoio a greves e ocupações de habitações vazias, acções contra as expulsões, contra os bancos. Destacam-se das formas de acção precedentes, integram os impasses e as derrotas do passado mais recente, discutem os princípios do compromisso e das tácticas negociadoras. Muito críticos da classe política e da corrupção que lhe é associada, questionam – de forma mais ou menos extrema – os próprios fundamentos da democracia representativa e até da sua existência. Procuram novos caminhos, interrogam-se acerca da prioridade do afrontamento físico com os mercenários do Estado e são particularmente sensíveis à necessidade de alargar o movimento. Duvidam dos projectos de ordenamento do presente, rejeitam a lógica do produtivismo capitalista actual e colocam em cima da mesa a necessidade de uma sociedade diferente (1). Estas preocupações são claramente antinómicas com a actividade consensual e normativa das instituições partidárias e sindicalistas tradicionais. A energia criadora libertada por estes movimentos permitiu a sua abrangência social, por vezes mais além do que se podia prever (…) Entre as ideias apoiadas por estes movimentos, a da ocupação parece ter encontrado eco. Assim como a proposta de que os interessados devem agir directamente, por eles próprios, para eles próprios, para resolver os seus problemas. A insistência na organização de base foi um elemento motor destes movimentos, pela constituição de colectivos não hierárquicos, desconfiados das manipulações políticas e insubmissos aos carismas dos chefes. Hoje em dia, quando a mais consensual imprensa se interessa de forma paternalista nos Indignados, é para lastimar que se tenham afastado da vida política tradicional e que tenham recusado de nomearem chefes, carências que, evidentemente, são apontadas como sendo a principal causa do seu fracasso” …/

(Excerto do texto  Dois apontamentos sobre o presente em movimento de Charles Reeve, Agosto de 2012)

(1) Grupo Etcétera, « A propos du caminar indignado », Barcelona, Março 2012.

(Foto acima Évora)

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