Setúbal Ocupa

Posted on 24 de Outubro de 2012

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A ocupação de casas é um acto de sobrevivência de quem não pedincha e toma a resolução dos seus problemas nas suas próprias mãos, passando por cima da legalidade e da submissão a essa caridosa burocracia da “assistência social”. A ocupação ultrapassa, por isso mesmo, o gesto natural de sobrevivência, e assume-se desde início como um acto de resistência. A reportagem no Público (24.10, Local Lisboa) sobre a “gente pobre” que ocupa em Setúbal as casas dos outrora ricos da cidade recorda uma realidade de longa tradição nessa cidade. Susana, nessa reportagem, não precisa de grandes teorias para explicar o simples facto de ocupar em família as “casas do pátio”, junto ao Jardim do Bonfim: “A vida não está para estarmos à espera que tudo nos caia do céu”.

Podemos encontrar é certo na história de Setúbal, uma maior discussão e divagações sobre essa resoluta atitude de resolver o problema de um tecto para viver, problema que rapidamente se explica neste sistema que nos traz escravos das hipotecas e da legalidade sacrossanta da propriedade privada. Basta para isso recordar as ocupações, cooperativas de habitação e todas as organizações populares de base desse contexto da Setúbal Vermelha – como nos recordam as Memorias da Revolução de Pedro Brinca e Etelvina Baía (2001 e 2002) ou os estudos de Carlos Vieira de Faria (2009). E de igual modo e para este século falar das okupas desse Sado Rebelde, e de que falamos no último número da Alambique e que levam na C.O.S.A já uma dúzia de anos.

Querer fazer as pontes entre essa longa tradição e o “alojamento familiar não clássico” que os Censos designam as ocupações de que fala a reportagem do Público, surge quase como um ímpeto. Mas na verdade ocupas e okupas nem sempre se encontram. Okupar tem respondido mais a dinâmica da criação de uma “referência a uma subcultura” que ai se encontra, conhece e fortalece. No entanto, não há que necessariamente que procurar “fazer” pontes. Basta percorrer as ruas e levar a já bem notada expressão anarquista nas suas paredes, para uma partilha entre ocupas com “k” ou não dessa mesma vontade em resolver a vida por si mesmo. Nesse encontro a revolta já lá se encontra. Quando mais de 200 pessoas, 60 familias, ocupam em Setúbal a Quinta da Parvoíce (nome adequado ao seu proprietário: Instituto da Habitação e Reabilitaçao Urbana) ou a antiga fábrica da Mecânica Setubalense (esta da Segurança Social). E quando no Bonfim “as casas que já foram da aristocracia dão agora tecto aos mais pobres” e no Bairro do Salgado a C.O.S.A. resiste, sabemos que para além da revolta, a comunidade pode existir.

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