«Em missão de propaganda no Baixo Alentejo»

Posted on 27 de Outubro de 2012

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Textos escritos em 1911 por Jorge Coutinho para a revista libertária mensal Lumen. Divulgados em artigo de José Barreto na Análise Social, são recuperados os testemunhos do anarco-sindicalista Jorge Coutinho acerca das lutas dos trabalhadores rurais no Alentejo e Ribatejo, através das impressões que colhe durante as suas deslocações e no contacto com os trabalhadores rurais. À um século atrás.

…/  O povo, na sua maioria, vive no favor do caciquismo. Vota nos que lhe aparecem prometendo escolas, estradas, telégrafo, correio, assistência, etc, e todavia trabalha para os outros; vota neles e não vê nada feito: o fisco e o município cobram impostos e as ruas não se aplanam; se até o baldio, extensão de terreno imemorialmente comum, se lhe quer tirar a título de aforamento, isto depois de lhe serem subtraídos de quando em vez alguns hectares.

Coisa notável: a Igreja não tem poder algum.

A República, como era de ver, em nada modificou a situação daquela gente. As coisas que convêm ao povoado não se fazem, porque os lucros do Estado não chegam para a despesa. Foi sempre assim e não tem remédio possível. O caciquismo ficou como estava  (…)

A tendência para a organização sindical é manifesta; as povoações aldeãs hão-de impor-se aos concelhos, marcando uma vida nova. Nas minhas conferências verifiquei que a aspiração é a comunalização. Um exemplo: alguns camponeses manifestavam- me o seu descontentamento por o Município querer aforar o baldio e perguntavam-me o que se deveria fazer em substituição deste sistema. Para evitar que, com a distribuição da terra, dentro em pouco, o baldio haja desaparecido, passando às mãos dos grandes proprietários — disse-lhes —, o que devem é agrupar-se, cultivar em comum e colher em comum: e eles obtemperaram que já faziam isso— não todos, mas alguns grupos. /…

Jorge Coutinho foi Secretário-geral da Comissão Executiva do Congresso Sindicalista  que reuniu as associações de classe em 1909 e 1911. Entre 1908 e 1912,   escreveu com maior ou menor regularidade, para O Protesto (semanário anarquista), A Obra (semanário livre), A Greve (diário sindicalista revolucionário), Lumen e O Sindicalista (órgão da Comissão Executiva do Congresso Sindicalista).

Descarregar aqui: Barreto, José (1984) – Jorge Coutinho e «O despertar dos trabalhadores rurais» (1911) Analise Social, vol. XX (83). 1984-4°. 523-540

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