Revolta-te Beja

Posted on 2 de Novembro de 2012

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O sentimento de revolta que percorre este país assenta em Beja num lento fervilhar que – ainda assim – serve de ânimo aos inquietos espíritos e às desesperadas contas feitas à vida de quem se encontra nas calendarizadas iniciativas apartidárias na praça pública ou na partilha de indignações nesse confortável mundo das “redes sociais” virtuais. Para lá desse pano de fundo do sistema ao fundo em que nos encontramos, as condições hoje vividas no distrito de Beja parecem finalmente reunir as condições para contrariar esse ar de apatia, resignação e profundo conservadorismo que se pega ao corpo na calina dos calores dormentes desta planície. O abandono das obras rodoviárias, já depois de sangrados os bons barros de Beja, acabou por ser o reconhecimento que faltava ao sentimento de orfandade que esta cidade e distrito sempre sentiram, seja com o Terreiro do Paço ou com a Praça do Giraldo. Caíram os pés de barro de quem perspectivara o progresso à boleia da auto-estrada e aeroporto.  

O movimento “Revolta-te por Beja” criado no facebook – com a inerente perspectiva de poder agregar a partida todo o tipo de pessoas – apelou à “revolta” contra a paragem das obras no IP8 e IP2. Exigir a “reposição da segurança e qualidade dos acessos a Beja” não merece sequer discussão, mas apenas a constatação da indiferença a que estão votadas as pessoas, secundarizadas pela preocupação primeira em assegurar os lucros aos consórcios do Betão e em como dar a volta ao embuste das Parcerias Público Privadas, sem que ninguém se responsabilize obviamente pelas pessoas, a região ou os danos ambientais já causados. Terá felizmente merecido alguma discussão, isso sim, o próprio sentido das obras, mas é lamentável que sejam os outrora vendilhões do progresso a virem agora dar o dito por não dito quanto à indispensabilidade de uma auto-estrada, mantendo-se ao invés uma ideia de que tantos milhões investidos não podem ser deitados fora (“fora” entenda-se nas PPP) pelo que o que há a fazer é arranjar maneira de continuar a recompensar com ouro o bandido.

Essa discussão arriscou-se a ser ferida de morte quando “Revolta-te por Beja” passou de uma iniciativa espontânea a uma marcha lenta de protesto organizada e mobilizada pela mesma trupe política, partidária e institucionalizada que antes aceitou sem discussão o sentido, ou pelo menos o modelo, dessas obras. “Revolta-te por Beja” passou das pessoas para os políticos. Não assisti a mais ninguém a falar para câmaras que os suspeitos do costume, inusitadamente juntos pela circunstância, pois os “likes” do facebook também são votos das urnas cujo “partilhar” se avizinha. E uma vez mais repousará o ânimo da mobilização para a rua e para a acção na mesma lógica bafienta da representatividade do sistema, impedido os seus hábeis actores de dar palco ao sentimento apartidário ou enojado do pé de chinelo da disputa camarária que se aproxima. E no entanto há motivos para crer que uma outra forma de lidar com o que nos aflige existe, como ilustra o espírito “andarilho”, lição dada pelas pessoas da cidade. Urge pegar nesse “desassossego” e dar-lhe expressão nas ruas sem ter de pedir licença à política de que nos queixamos todos os dias.

Por outro lado a questão das acessibilidades de Beja é por isso mesmo, e como nunca foi até aqui, um momento chave para discutir o que está em causa em termos de “desenvolvimento”. Para que serve uma auto-estrada e inarráveis viadutos de usos duvidosos e gastos evidentes, quando uma melhoria dos traçados rodoviários e necessárias circunvalações servem perfeitamente. E no quadro mais vasto como não pensar se realmente faz sentido persistir na mesma lógica de progresso delineada nos Conselhos de Ministros fascistas de 1971, caucionado sucessivamente até ao recente PROT Alentejo, num plano de acessibilidades no Alentejo que obedece tão somente ao escoamento portuário de Sines para a Europa. O Aeroporto de Beja é nessa história um episódio marginal e falhado, evidente quando o eixo escolhido à larga escala da finança mercantil é Sines-Badajoz, pelo caminho cabendo a Évora a passagem de ligação dos projectados eixos de mercadorias (ferroviárias incluídas). Por essa razão a auto-estrada do Baixo Alentejo ficou-se agora por Santa Margarida do Sado, não inviabilizando o projecto do IC33 que daí para Évora estaria pronto a rasgar impunemente o ainda intocado montado do Sado, à semelhança das paisagens que para trás condenou nas serras de Santiago do Cacém e Grândola. Recordemos a esse propósito as povoações de Aracena e Aroche que do lado espanhol negaram a pretensão de uma auto-estrada para preservar a riqueza natural de uma região, cuja destruição veria como no caso português a imensa vantagem de “ver o progresso a passar”. As últimas duas décadas de betão em Portugal manifestamente produziram as vias rápidas que afastam não apenas as pessoas do interior, mas interiorizam nas pessoas a ideia de que somente a larga escala do progresso nos irá trazer o bem-estar. Será assim? Que “revolta” é afinal pedida? Servirão os protestos simplesmente para pedir mais massa betuminosa, ou termos finalmente alguma massa critica a mexer-se por estes lados…

Filipe  Nunes

Publicado hoje – 02.11-2012 – no espaço de opinião do Diário do Alentejo.

 

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