Acerca das Pedras e do Medo

Posted on 30 de Novembro de 2012

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Medo

Após os confrontos na última Greve Geral, tornou-se evidente como se pretende confinar ao Medo todos os milhões de pessoas que dia após dia tem cada vez menos ar à sua volta para respirar. Um sufoco imposto de todos os lados e que, designado nesse outro sinónimo que é a crise, atemorizou-nos pelo medo de perder o emprego, o futuro de quem não o tem e a estabilidade das nossas vidas. Rapidamente resumido e formulado no pragmatismo capitalista do fim da história, que é como quem diz, esqueçam as outrora conquistas da paz, o pão, habitação, saúde e educação que se ouvia soar nessa canção (de) “Liberdade”. A mesma música responde ao seu nome e aos tempos de hoje, quando terminava ecoando que “só há liberdade a sério quando houver / Liberdade de mudar e decidir / quando pertencer ao povo o que o povo produzir “. Essa premissa, já o sabemos, foi deitada por terra, conduzidos até aqui peloxs Donos de Portugal, connosco ao volante até onde houve alcatrão e betão para nos enterrar. Mas o inicio da canção poderá apelar hoje mesmo a um novo ponto de partida, pois se “Viemos com o peso do passado e da semente / Esperar tantos anos torna tudo mais urgente / e a sede de uma espera só se estanca na torrente”. Porque de novo, e uma vez mais, parece que “Só se pode querer tudo quando não se teve nada / Só quer a vida cheia quem teve a vida parada”.

E não há, nem nunca haverá, torrentes que abram caminho sem maior ou menor violência nas águas paradas em que atolamos. Por isso a boiar na política parlamentarista e no sindicalismo de palanque, uma “meia dúzia” de arremessos de pedras atiradas a esse lamaçal criaram as ondas de choque como desde há muito não se via. E nesse ponto de rutura, de passagem a outro nível de reação e de ação direta, nas pedras e nos petardos, começa a operar-se um ponto de viragem ao Medo. Indefinido e certamente incerto, pois ao mesmo tempo que se percorre esse fio da navalha que a violência sempre será, esta serve mediaticamente para estoicamente ganhar tempo e pretexto a resposta que se quer definitiva pelas forças da ordem democrática eleita em instaurar o Medo absoluto, eternamente auxiliados pelo falso pacifismo de quem equilibra o peso de uma pedra na mão e as vidas deitadas ao desbarato pelas finanças ou pelo uso de um cassetete noutra mão.

Porque a torrente não se estanca no argumento falacioso e ridículo da “meia dúzia de profissionais da desordem”, pois a torrente está em todos os que permanecem nas ruas após o encerrar anunciado dos protestos pelos profissionais do sindicato, e cujo presença inamovível – espectativa ou participante – entre a desordem incomoda maís a ordem que a velha calçada portuguesa que lhe é arremessada. A carga, a perseguição raivosa e as ilegalidades na prisão de mais de uma centena dessa torrente que está na rua, como a urgência atabalhoada da policia, mesmo por vezes entre congéneres praças jornalísticas, não se prende em justificar apenas os acontecimentos, mas em implantar um Estado de Medo que pode começar por atacar e diabolizar os anarquistas ou os estivadores, velha receita de discurso criminalizante que singrou nos totalitarismos de direita e esquerda do século passado (e nas democracias de hoje), mas cujo alcance pretende instaurar na vida de todos a lógica da receita médica inquestionável dos carrascos que nos fazem sombra. Do come e cala.

Filipe Nunes

Publicado hoje, 30.11 no Diário do Alentejo

Acerca dos acontecimentos de 14 de Novembro e em torno do muito escrito sobre o mesmo ver:

Já todos atiramos uma pedra (crónica por José Neves, publicada no i em 22.11.2012)

A Violência Ilustrada (I, II e III) (por Rick Dangerous no Spectrum em 23.11.2012)

Violenta é a austeridade  Comunicado

O Caminho das Pedras (crónica de Nuno Ramos de Almeida, publicada no i em 20.11.2012)

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