Prisão de Beja: Fome.

Posted on 16 de Dezembro de 2012

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« Gostava muito que esta carta fosse publicada para que as pessoas pudessem conhecer uma realidade que se vive na prisão de Beja.

Atualmente, os reclusos da prisão de Beja queixam-se aos seus familiares de fome, além da comida ser de muito má qualidade (carne de frango verde e azulada por dentro) e pouca. Raramente há repetições, nem sopa há para repetir. Às vezes têm comida nos tabuleiros e dizem que não podem dar mais. Quando se queixam aos guardas de serviço, é o mesmo que nada, os chefes fingem que não ouvem. Ninguém faz nada, os rapazes entram para lá e ao fim de duas semanas já estão a ficar esqueléticos. Só é permitido levar para o estabelecimento um quilo de comida e uma vez por semana.

Isto é uma vergonha. Estamos em crise, a ministra da Justiça diz que cada recluso custa 40 euros por dia, mas não é da comida que lhes dão. Antes davam o que chamam de reforço, um pacote de leite ou sumo e um queque. Há mais de um mês que não dão queques.

Eu sou mãe, tenho que me manter no anonimato. Vivemos num país democrático, mas nem sempre podemos revelar as realidades, quem paga são sempre os mais fracos, aqueles que não se conseguem defender. »

Leitora anónima

Carta Publicada no DIÁRIO DO ALENTEJO, 14 de Dezembro 2012

Neste final de 2012 as taxas de ocupação das cadeias portuguesas ultrapassam os 100% e a situação é bem pior nas regionais. Segundo os últimos dados de Junho, existiam 13.307 reclusos numa média de 15 novos reclusos por  dia. Em 2009 o número pouco ultrapassava os 11 mil. O jornal norte-americano New York Times descreveu em Novembro como a vida dentro das prisões está a tornar-se “intolerável” com os cortes orçamentais. Referia então ao mesmo jornal o presidente do Sindicato Independente do Corpo da Guarda Prisional, Júlio Rebelo que “estamos numa situação de tal austeridade que muitos presos nem sequer requerem a liberdade condicional porque as suas refeições estão pagas dentro das prisões”. Nesta vergonhosa afirmação, ou precisamente em sentido contrário na denuncia acima transcrita de uma mãe de um recluso de Beja, é estabelecida a simples equação entre Prisão e Fome.

A lógica desumana deste sistema e do corte sobre corte na vida das pessoas está por todo o lado. Esse ataque estende o seu lado mais negro sob os muros das prisões. Porque desses ninguém quer saber, assim julga quem policia as nossas vidas.

E estes estão certamente atentos ao que se está a passar aqui ao lado. Em Espanha no quadro da reforma prevista para o código penal o Tribunal Constitucional pretende ratificar a cobrança dos gastos de manutenção aos própios reclusos! O  preso de uma cadeia andaluza viu  reduzida a sua pensão de 301 a 147 euros pelos descontos do suposto preço da sua comida. Uma sentença que inaugurou o impávido atropelo dos “direitos” estabelecidos. Sempre no sentido – dentro das prisões ou fora delas – de prejudicar os mais desfavorecidos. (Ver AQUI e AQUI).

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