Missionários do Erro e da Mentira

Posted on 27 de Dezembro de 2012

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padres

Missionários do Erro e da Mentira

Núncios, bispos, cardeais, cónegos, monsenhores,

— Truculenta manada obesa de hipopótamos —

Virgem mãe dos heróis, ó Liberdade! enxóta-mos,

E fazemos transpôr, a grunhir, sem demoras,

As fronteiras do globo em vinte e quatro horas!

GUERRA JUNQUEIRO

 

Eis um homem que passa de olhos no chão ou de olhar fito vagamente no espaço, sem se fixar nos outros homens  a não ser quando estes o não podem ver.

Para ainda mais acentuar o carácter dúplice e indeciso da sua individualidade, este homem e aparentemente uma mulher pois que veste saias, não usa barba, tem a pele setinosa como as damas e o andar participa um tanto ou quanto do ondulado mulheril…

A cor do traje reflete também o carácter deste vivente ou o da sua missão nas sociedades que o criaram: ou é negra como a treva da ignorância que ele espalha e propaga, sombria como o crime que encarna; ou é vermelha como os apetites sanguinários da sua natureza, cor simbólica da impetuosidade e veemência das suas paixões; ou é roxa como a hipócrita penitência da sua vida, roxa como a violeta cuja modéstia quer imitar e que na vida deste homem só serve para ocultar a traição pronta a ferir o adversário desprevenido.

Vede o seu todo: aquela adiposidade dá a conhecer a madraçaria, apanágio do seu viver. Aqueles lábios grossos são indício da sua sensualidade. Aquele olhar infixo, miado encoberto, voltado sob os cílios, denota a dissimulação do seu pensar; aquele vago retraimento do seu corpo, que parece sempre prestes a fugir, descobre a cobardia da sua alma.

Misto de camaleão, porco, raposa e hiena. As suas falas são untuosas, melífluas. As suas maneiras insinuantes, muitas vezes pegajosas, permitam-me a expressão.

Dir-se-ia que em certas ocasiões de toda a sua natureza golfa a baba, escorre um pus oleoso que lhe facilita o escorregar-se por entre aqueles que, enojando-se com o seu contacto, não obstante pretendem apanhá-lo para o aniquilar sentindo com pesar que em virtude da oleosidade de todo o seu ser, se lhes escapa.

E contudo, eis que em consequência dessas secreções repugnantes, conseguiu como a lesma agarrar-se a esta ou aquela sociedade ou deslizar sem que o pressintam. Este homem, que sem ser hermafrodita é, por assim dizer, meio homem meio mulher, castrado e sátiro, sodomita e femeeiro, asceta e libidinoso, ente inqualificável que afinal, em última análise, nem é homem nem mulher, pois que ambas estas entidades nega, acervo híbrido de todas as incongruências sociais que censura e aproveita, este homem, dizia eu, é o padre!

Não nos iludamos.

Por mais belas que sejam as imagens que Victor Hugo fez deste produto não há padres bons. Todos eles são perigosos; são missionários do erro, da mentira.

E, embora o grande poeta nos pintasse com mãos de mestre um exemplar virtuoso entre os que mais o poderiam ser, a verdade e que, quanto mais virtuosos os padres são, isto é, quanto mais ricos daquela virtude de convenção social religiosa, tanto mais nocivos, pois mais iludem e arrastam a humanidade à servidão, à inconsciência e inciência, à abjeção da vida, à impassibilidade sofredora de todas as explorações. Que nos importa que um padre seja virtuoso se ele, ministro de uma religião de mentira, é obrigado, como tal, a manter a sociedade no desconhecimento do que a cerca, na subserviência ao desconhecimento, na sujeição aos que a governam e exploram, no terror do que não compreende nem convém ao padre que lhe expliquem?

O padre vem, cheio de fé ou inconvicto dizer-nos, por exemplo, que tem o poder de nos perdoar os agravos, ofensas, pecados que tenhamos cometido – não contra ele mas em prejuízo de outrem; que tem o dom de ler as nossas consciências; que só ele poder intermediário entre nós e Deus; que só ele nos pode encaminhar para o Ceu; que só ele poderá convencer o velho chaveiro Pedro a abrir-nos as portas do Paraíso.

Este homem dizendo tudo isto mente: tanto basta para que seja perigoso e daninho;para perpetuar um estado de coisasque é fonte de todos os sofrimentos dahumanidade em benefício de uma ou váriascastas açambarcadoras do produto do trabalhodos crentes e supersticiosos miseráveis.

Como pode um padre, tenha ele a alma de um justo (?) acreditar que possui a faculdade de remir as ofensas, erros, crimes dos outros homens, ele que é tão susceptível de pecar como qualquer mortal?

E poderá garantir que em certo modo ele os seus colegas não tenham concorrido para a existência do crime que vão julgar? Um homem que prevarica porque ignora, porque foi embrutecido por ideias falsas, desviado da verdade por mistificações religiosas, alucinado nos seus vícios por uma educação jesuítica, não pratica um crime contra as leis da convenção social, ou contra as leis inidilúveis da natureza senão porque a isso foi levado pela influência do meio que o cerca, na elaboração do qual foi agente ou factor, entre outros, o padre.

Portanto esse padre quando lança aabsolvição sobre os delinquentes ou oscondena a uma penitência, mente aos homense a si mesmo.

Se tem a noção dessa mentira, é um impostor, um burlão. Se não tem, é idiota.

Em ambos os casos é um mal pela perniciosa influência que o seu proceder vai operar nas massas ignaras.

Não há religião que, analisada friamente pelo espírito amante da verdade, se não revele um tecido de necedades e torpezas com um recheio de moral que a própria religião é a primeira a tornar ineficaz por motivo das suas contradições.

Como pode pois um homem ministrar semelhante cúmulo de despautérios e imoralidades com a convicção de que faz obra meritória a não ser esse homem um imbecil?

Forçosamente é tolo e se não é, teremos de concluir que é velhaco e mistificador!

Não vos deixeis pois iludir, ó povos, por esses tartufos de saias, insexuadas que negam a virilidade humana, santificam o ódio ao sol brilhante e vivificador da natureza; glorificam a noite do espírito, a humanidade servil, a renúncia à vida, a aversão à família que eles por condição abjecta nunca poderão compreender.

O padre é a entidade mais prejudicial que a fatalidade das coisas criou. Ele é o consagrador da torpeza social que nos esmaga!

Urge pois extirpar firmemente, rapidamente, implacavelmente, sem contemplações algumas, este maldito cancro.

JOSÉ CARLOS DE SOUSA

 

SOUSA, José Carlos de [1925?]

Missionários do Erro e da Mentira. Beja,

Federação Anarquista da Região do Sul de  Portugal.

Exemplar a disponível para ver/descarregar AQUI

(A mesma obra surgiu ainda em 1950: Missionários do Erro e da Mentira. Lisboa: Edições Confederais.)

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