Sines: A memória Anarco-Sindicalista (I)

Posted on 15 de Janeiro de 2013

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Em Sines podemos através do Arquivo Municipal Arnaldo Soledade recordar alguma das memórias das lutas sociais e do anarco-sindicalismo da primeira metade do séc. XX. Uma outra história hoje distante desse território actualmente forjado pelo complexo industrial dos anos 70. Nesta semana em que recordamos o 18 de Janeiro de 1934 – a ultima grande expressão do sindicalismo livre e anarquista, que teve em Sines um dos palcos mais notórios – antecedemos a sua memória com um olhar sobre as duas primeiras décadas do século no Alentejo Litoral. Em que sindicalismo, anarco-sindicalismo, era sinónimo de uma solidariedade extensível – a diferentes ofícios, a diferentes regiões – e mais do que desejando, vivendo verdadeiramente um sentido de vida revolucionário.

Como nos dá conta Sandra Patrício do Arquivo Municipal, no início do século XX, a vila de Sines tinha uma população ocupada entre a pesca, a agricultura e a actividade corticeira. À sua volta os campos e as hortas abasteciam a vila cujo comércio e estabelecimentos vários cresciam. Como hoje acolhia o sector dos marítimos: os pescadores das armações (entre 1914 e 1918 existiam cinco armações), pescadores por conta própria, estivadores e a tripulação das embarcações. Juntam-se-lhes a indústria conserveira entre diversas fábricas e outra pequena industria. E sobretudo destaca-se a transformação da corticeira iniciada no século XIX. “Em 1908, já laboravam cinco fábricas com cerca de quatrocentos operários. Em 1911 o sector ocupava cerca de um terço da população activa de Sines e em 1912 são arroladas nove fábricas, sendo quatro delas de pequena dimensão. Neste mesmo ano, a associação de operários corticeiros local agrupava mais de metade dos corticeiros em Sines”.

É sobretudo neste sector que se desenvolvem as lutas anarco-sindicalistas alicerçadas no anarquismo que marca presença em Sines desde os finais do século XIX e inícios do século XX. Diabolizado pelas elites – indignadas em 1908 pelo assassinato de comerciante de Sines pelo “degenerado anarchista João Francisco o Gumbeta, d’esta villa”, nas palavras de Adelino de Oliveira, escrivão da Junta de paróquia, regedor e Juiz de Paz – o anarquismo é uma força crescente nas classes mais desfavorecidas. As dificuldades vividas são agravadas com a Primeira Guerra Mundial (1914‐1918) “afectando o sector agrícola e industrial (a cortiça, as conservas), dependente do mercado externo (…) a crise das subsistências e o problema da carestia de vida, resultante da interrupção das trocas comerciais com o exterior e a fragilidade da produção interna portuguesa, dificultaram ainda mais as condições de vida dos operários. Sines, enquanto “grande centro corticeiro”, nas palavras do editorial do Jornal de Sines, (…) passou então por sérias dificuldades e problemas sociais”.

Sandra Patrício, na rubrica Arquivo Aberto, do Boletim Municipal Sineense contou a história dos Corticeiros de Sines numa série de 4 artigos intitulada Os operários corticeiros em Sines (tema já antes abordado por João Madeira na revista História ”, nº 87 [1986] e 142 [1991]) e de que aqui ficam excertos relativos às duas primeiras décadas do séc. XX (completo com notas e referências bibliográficas AQUI)

 

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«A organização sindical dos corticeiros de Sines nasce em ligação com a Associação de Lisboa, em 1902. “As suas reivindicações foram no sentido quer dos aumentos salariais quer na exigência de pautas alfandegárias mais favoráveis à indústria, bem como a proibição da exportação da cortiça em bruto. A secção de Sines conseguiu sustentar uma greve entre Novembro de 1908 e Março de 1909, com apoio dos comerciantes da vila e num contexto nacional de reivindicações neste sentido. (…) A sua principal vitória foi ao nível da criação de uma tradição de coesão e combatividade de um sector que se tornaria líder da contestação social em Sines, apoiando outros grupos sociais em Sines, como o dos marítimos.

Após um período de refluxo do movimento, em 1910, pouco antes da implantação da República, a secção de Sines volta a participar numa nova greve do sector ao nível nacional contra a exportação da cortiça em bruto, organizada pela Federação Corticeira. A iniciativa teve repercussões locais, dando origem a uma manifestação de várias centenas de trabalhadores. Foi a partir de 1910 que as secções corticeiras passaram a nomear um fiscal mensal ao lado de representantes do governo e dos industriais para o embarque da cortiça.

Entre 1911 e 1914, a secção de Sines desenvolve acções de solidariedade com outras secções sindicais do sul, embora tivesse perdido já o apoio dos comerciantes locais. Em 1911 os operários da Herold entram em greve por solidariedade com a greve dos operários da mesma empresa no Barreiro; no mesmo ano as cinco fábricas mais relevantes da vila (além da Herold, a Prats, a Francisco Bigas, a Bucknall e a Arps) encerraram em solidariedade para com os operários de Almada.

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Em Janeiro de 1912 os corticeiros e os trabalhadores apoiam a greve dos trabalhadores rurais de Évora, assim como o fizeram os grupos de trabalhadores de Santiago do Cacém. Ainda nesse ano, mas em Novembro, os corticeiros entraram em greve por dois meses pela melhoria de salários e contra o aumento do preço dos géneros. Apesar do envio de uma força militar, a secção de Sines conseguiu manter a greve com o auxílio dos trabalhadores rurais do concelho, os quais enviam alimentos e dinheiro, assim como os trabalhadores de Almada, Belém, Poço do Bispo e Grândola. Não obstante os conflitos surgidos entre os corticeiros e da intransigência dos industriais, foi possível criar comissões para a fiscalização do trabalho. Em Maio de 1914 a questão não fora ainda resolvida, antes ainda agravada pelo despedimento de operários em 1913. Uma nova greve despoletou-se então entre os trabalhadores da Herold, num contexto de paralisação das restantes fábricas por falta de matéria para laborar.

Nos finais de 1910 a secção operária lidera ainda o processo de constituição de uma Associação Mista de corticeiros, marítimos, operários das indústrias conserveiras, trabalhadores rurais, sapateiros e até lavadeiras e criadas de servir. Em 1911, contudo, o movimento esmoreceu, face à recusa das autoridades em aprovar os seus estatutos. Mesmo assim, a Associação teve um papel importante na gestão do conflito na fábrica conserveira Canha e Formigal.

Em Abril de 1916 e secção dos corticeiros desempenhará um importante papel junto dos operários das armações de pesca em greve, solidarizando-se com os mesmos, como veremos adiante. O administrador do concelho refere-se aos corticeiros, já durante alguns conflitos registados em Fevereiro de 1915, como agitadores capazes de fazer sublevar toda a população operária da vila: “Esta classe marítima que me parece ser ordeira e trabalhadora, anda a ser atiçada por alguns elementos da classe corticeira, agitadores de marca que se declaram solidários com aquela classe, instando-a à prática da rebelião e fazendo as suas ameaças à mistura em reuniões e comícios.”

Ao nível ideológico, o núcleo corticeiro de Sines filia-se na corrente anarcosindicalista. São lidos os jornais O Corticeiro, o Sindicalista e, mais tarde, o núcleo desenvolverá relações com a revista Germinal (1914-1917) e A Batalha (1919- 1926). (…) A situação não melhora nos anos seguintes, especialmente devido à eclosão da Grande Guerra. Face à perda dos mercados alemães e belgas, as industriais em Sines correm sérios riscos de encerrar, laborando por vezes quatro ou três dias por semana.

Em Setembro de 1914 o porto está quase paralisado com a retracção da exportação de cortiça. Alguns dos industriais, nomeadamente José Prats, catalão com residência em Hamburgo, vê a sua fábrica, com sessenta operários, ser encerrada em Maio de 1916, por ter continuado a exportar para a Alemanha. Para além disso, a crise das subsistências e o problema da carestia de vida dificulta ainda mais as condições de vida dos operários do sector. Uma comissão de operários propõe então aos industriais e ao administrador do concelho o pedido de uma linha de crédito em que a cortiça já transformada servisse de garantia para que se pudesse receber salários equivalentes a quatro dias de trabalho semanais. Dois dias depois, em 11 de Setembro, intimam os industriais a reabrir as fábricas, entretanto encerradas, num prazo de três dias, “ caso contrário a classe trabalhadora resolve tomar sobre os industriais a responsabilidade de determinados actos que por ventura possam suceder em virtude do seu propósito”. Dado que não encontrámos mais referências a este problema, parece- nos que as reivindicações foram atendidas.

No entanto, em 10 de Setembro de 1917, os operários corticeiros entram de facto em greve durante um dia, vendo as suas reivindicações, que não conhecemos, atendidas, apesar da insistência de um emissário da União Operária Nacional no sentido da continuação da greve. De facto, a associação operária nacional havia decretado uma greve geral nacional a 8 de Setembro por motivo da crise de subsistências. Nem sempre, contudo, operários e industriais estiveram de costas voltadas. Em Novembro de 1916 e em Janeiro de 1918  cinquenta operários da fábrica de preparação da cortiça em quadros de António Augusto Guerreiro  com o próprio, pedem a intervenção do administrador do concelho para manter a fábrica em funcionamento.  (…) Assim, o sector corticeiro de Sines reduziu a sua actividade reivindicativa em 1918, ao contrário do movimento operário nacional. Parece antes intervir através de uma Liga Operária, como veremos. As suas preocupações, durante este ano, centrar-se-ão nos problemas dos abastecimentos, situação rapidamente alterada em 1919, quando regressa às greves. A partir de 1918 a intervenção do sector corticeiro e do operariado em geral faz-se através da Liga Económica Operária Sineense, cujos membros estão ligados à secção corticeira.

A Liga, em contraposição com a Associação Comercial e Industrial, é uma organização de defesa dos consumidores face ao açambarcamento, à venda dos géneros acima das tabelas de preços e à qualidade dos géneros alimentares vendidos. As suas propostas e reivindicações vão no sentido da intervenção das autoridades locais, nomeadamente da Câmara Municipal, do Administrador do Concelho e da Comissão das Subsistências. (…) Em Fevereiro de 1918 faz várias propostas à Comissão de Subsistências do concelho (…) Em Março e Abril a Liga continua a desempenhar um papel relevante na denúncia da venda de géneros a preços excessivos, como o feijão verde, e, especialmente, na denúncia de casos de sonegação de géneros e contrabando. (…) As reivindicações da Liga Operária de Sines e até dos administradores locais não divergem das manifestadas pela União Operária Nacional no mesmo ano. Esta organização pede, entre outras medidas, a proibição da exportação de géneros alimentares; o aproveitamento dos transportes marítimos e ferroviários mobilizados pelo Estado; facilidades na importação de géneros alimentares, adubos e máquinas, a municipalização dos serviços de abastecimento. Contudo, a associação de Sines, cautelosa, não arrisca reivindicações de carácter social, como a liberdade de associação.

Em síntese, segundo Sandra Patrício, os movimentos sociais em Sines, com tradição desde os anos oitenta do século XIX, agitaram a vila no período da Grande Guerra. Destacaram-se os dois sectores mais numerosos e com maior capacidade de organização, os corticeiros e os marítimos. As suas reivindicações centravam-se no direito ao trabalho num período de crise industrial, no aumento dos salários e na questão das subsistências, crucial, na qual os primeiros procuraram intervir. Entre 1910 e 1914, nos quatro anos anterior à Grande Guerra, o movimento fora, segundo João Madeira, “asperamente decepado após momentos de considerável fulgor”. De facto, é este o quadro que se ainda afigura no período em estudo, apesar das greves que conseguiram realizar. O saldo foi especialmente negativo para o sector dos marítimos, mas também os corticeiros vão estar anormalmente calmos durante 1918, o ano de Sidónio Pais. O movimento corticeiro parece apenas recobrar algum vigor em 1919, o que pode estar relacionado com o recurso mais frequente à força policial por parte dos administradores do concelho.»

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