Sines: A memória Anarco-Sindicalista (II)

Posted on 15 de Janeiro de 2013

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Prossegue Sandra Patrício na série de 4 artigos intitulada Os operários corticeiros em Sines (AQUI), já em torno dos agitados anos 20 e 30, em como «a Administração do Concelho de Sines entre 1926 e 1927 viveu assoberbada pelas necessidades de vigilância aos “revolucionários”». O comunista Américo Leal, recorda da sua infância (em Quem Somos!: testemunhos. 2001) como «a década de 20 foi, em Sines, plena de manifestações e tumultos», como em 1926 com «uma paralisação das actividades económicas em Sines, em que os operários corticeiros e os republicanos tiveram um papel relevante». E já na década de 30, no braço de ferro com o Estado Novo, Sines participa activamente na greve geral insurreccional de 18 de Janeiro de 1934 levada a cabo pela Confederação Geral do Trabalho (anarco-sindicalista) e também pela Federação das Associações Operárias de Lisboa (socialista), pela Comissão Intersindical (comunista) e pelos sindicatos autónomos.

Segundo Sandra Patricio «na madrugada do dia 18 de Janeiro dão-se acções de protesto, nomeadamente cortes de linhas telefónicas e telegráficas, sabotagem de linhas férreas e de estradas, atentados e assaltos a um ou outro local importante do ponto de vista político ou económico, confrontos com forças da ordem, lançamento de pedras e bombas em lugares públicos, e, por situações de greve. Em Sines, a greve durou um dia, mas registou uma adesão maciça, decorrendo de forma pacífica, e não houve notícia de atentados ou violência. Um funeral, ao qual afluíram 400 pessoas, serviu de pretexto. Entre os organizadores encontram-se artesãos, pedreiros e trabalhadores. Outros grupos são os dos carpinteiros, pintores, trabalhadores rurais, operários das várias fábricas corticeiras e de conservas de peixe, padeiros, barbeiros, comerciantes. Entre estes últimos, Américo Leal  nomeia os republicanos João Barbosa, João Mendes, Joaquim da Luz e a família Guizado. Segundo Fátima Patriarca, o movimento de protesto terá sido conduzido e organizado por Manuel Estola no (pedreiro), Francisco Garcia (sapateiro), e os trabalhadores José dos Santos, Artur dos Santos, Alexandre Maurício e Emílio Ferreira, cujas profissões e filiação política a autora não conseguiu apurar.

Já Américo Leal atribui aos operários corticeiros a responsabilidade de mobilizar os operários, embora reconhecesse que “cinco elementos [Emílio Ferreira, operário padeiro; Manuel Estolano, operário da construção civil, Pedro Chapa, descarregador de mar e terra, Tomás Gazil, barbeiro e Alberico, corticeiro] da CL [Comissão de Luta] “dirigiram a luta” e eram anarco-sindicalistas. Para o autor, contudo, o papel fundamental partiu dos operários corticeiros e da construção civil, como António Botelho, José Lázaro ou Francisco Beja, “todos comunistas”.»

O testemunho do comunista Américo Leal, sineense que em pré-adolescente testemunhou os factos, aponta para 3 momentos da vida politica e operária de Sines: «de 1900 a 1926, com destaque para a influência política dos republicanos, anarquistas e socialistas nos trabalhadores do sector industrial e nas populações; a que decorreu de 1926 a 1834, em que a influência dominante na região é dos anarco-sindicalistas e comunistas; e a que vai de 1934 a 2000, em que, com a adesão dos anarco-sindicalistas ao P.C.P., a influência passa para os comunistas». Não distante da disputa da memória de 18 de Janeiro de 1934 pelos comunistas, Américo Leal relata-nos nesse mesmo tom os acontecimentos desses dias (ver Aqui):

g_18janeiro(Sines 1934, retirado daqui)

«Tudo comprova, através de afirmações ouvidas na altura a elementos participantes no acontecimento que, na véspera do 18 de Janeiro, um estafeta chegou a Sines à noite para colocar, com certa garantia, que a classe operária paralisaria no dia seguinte, que se tratava de um levantamento nacional e em que, nos centros mais fortes da classe operária, esta deveria, se pudesse, apoderar-se dos postos das forças militarizadas que aí existissem.

Assim, no dia 18 de Janeiro, às 8 horas da manhã, elementos da Comissão de Luta e quadros activistas intermédios trataram de contactar os trabalhadores nos próprios locais de trabalho informando que o levantamento tinha sido iniciado e que todos os sectores de actividade na vila deveriam paralisar o trabalho imediatamente e concentrar-se na Praça Tomás Ribeiro.

Cerca das 9 horas da manhã a paralisação laboral era completa e, uma hora depois, todo o comércio, a convite directo da Comissão de Luta tinha encerrado. Três classes profissionais dominavam a vida económica do concelho de Sines; os corticeiros (a mais organizada e activa), os pescadores (compreendendo os conserveiros, os estivadores e os descarregadores de mar e terra) e a construção civil. A população, concentrada no Rossio, na Praça Tomás Ribeiro e nas ruas centrais permaneceu até à tarde esperando ansiosamente a chegada da carreira e com ela as notícias. Sabe-se que a C.L. discutiu se seria de tomar ou não o posto da GNR. Pelo comportamento passível desta, que se intrincheirou no castelo, e sem ter a certeza de que o “levantamento” seria vitorioso a Comissão preferiu aguardar os acontecimentos.

Quando à noite a carreira chegou e com ela as notícias de que a greve não tinha atingido os seus objectivos e que havia uma derrota, os trabalhadores compreenderam que as coisas se tinham complicado e que iria haver repressão, pelo que alguns elementos da C.L, tomaram a iniciativa de se esconder como medida de defesa. Porém, Tomás Gazil e Pedro “Chapa” foram presos.

A paralisação operária no 18 de Janeiro em Sines conheceu uma outra vertente que importa destacar: a da solidariedade republicana com a luta operária. De facto, comerciantes republicanos activistas na época como foram José Maria Ferreira, João Barbosa, Joaquim da Luz e a família Guizado, antifascistas altamente prestigiados, foram os primeiros a encerrar os estabelecimentos, contribuído assim para que todos os outros também o fizessem.

O 18 de Janeiro em Sines deu-se porque a classe operária estava organizada e activa, e a sua mobilização tão rápida só foi possível por a C.L contar à partida com quadros intermédios, entre outros, de corticeiros comunistas activistas como António Botelho e seu irmão Hilário, Augusto “Rato”, José Lázaro, António Vilhena, e Francisco Beja e José Pio, da construção civil. A Comissão de Luta era composta por: Emílio Ferreira, operário padeiro; Manuel Estolano, operário da construção civil; Pedro “Chapa”, operário descarregador de mar e terra; Tomás Gazil, barbeiro e Alberico, operário corticeiro.»

PATRICIO, Sandra (Aqui):

Os Operários Corticeiros em Sines (I- IV)

Trabalhar em Sines entre 1900 e 1950 (I) e (II)

Actividade industrial em Sines até ao impacto do Complexo Industrial

Guia para o estudo da Primeira República em Sines, C.M. de Sines, Arquivo Municipal de Sines, Outubro de 2010

Guia de fontes para o estudo do Estado Novo em Sines. Correspondência da Câmara Municipal de Sines, C.M. de Sines, Arquivo Municipal de Sines, 2011

PATRIARCA, Maria de Fátima

“Sindicatos contra Salazar: a revolta de 18 de Janeiro de 1934”.1ª edição. Lisboa: Instituto de Ciências Sociais, 2000.

MADEIRA, João:

“A Greve dos Corticeiros em Sines em 1908”, in História, primeira série, nº 87, Janeiro de 1986, pp. 49-50.

“Os Corticeiros e o sindicalismo em Sines (1910 – 1914) ”, in História, primeira série, nº. 142, Julho de 1991, p.41.

GUIMARÃES, Paulo

“Elites e Indústria no Alentejo (1890-1960): um estudo sobre o comportamento económico de grupos de elite em contexto regional no Portugal contemporâneo”. 1ª edição. Lisboa: Edições Colibri e CIDEHUS, 2006. ( Biblioteca –estudos& colóquias;12). ISBN 978-972-772-642-4, p. 217.

LEAL, Américo

Quem Somos!: testemunhos. 1º edição. S.l.: edição do autor, 2001.

A luta da classe operária e das populações  do Alentejo Litoral no século XX (1) e (2)

– Contribuição para a história dos acontecimentos –

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