18 de Janeiro de 1934

Posted on 17 de Janeiro de 2013

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Fátima Patriarca

Fátima Patriarca (2000) “Sindicatos contra Salazar, A Revolta do 18 de Janeiro de 1934”, Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais

«Este livro é um retrato quase cinematográfico dos acontecimentos do 18 de Janeiro de 1934 (…) 1º Não tem qualquer sentido reconduzir o 18 de Janeiro à Marinha Grande. Fica mais do que demonstrado que a versão oficial (interesseira, por natureza) e a versão do Partido Comunista (também obviamente interesseira) — ao prestarem destaque quase único à Marinha Grande, aos vidreiros e à liderança comunista — não logram comprovativo na realidade dos factos. 2.º Ganha sentido, sim, «recolocar » o 18 de Janeiro na sua dimensão histórica exacta: um movimento operário insurreccional, que visava a reconquista das liberdades sindicais, a par do derrube do regime do Estado Novo. (…) Não me parece que seja muito importante, hoje, «contar espingardas», ou seja, procurar apurar se os anarquistas foram mais decisivos do que os comunistas, ou se os socialistas ou os autónomos não tiveram significado relevante. Houve uma convergência de esforços, emergiu uma implicação de todos — mesmo que não tenha ocorrido uma unidade estratégica, organizativa, táctica, como parece evidente pela comprovação dos desencontros, pelas falhas de articulação, pelas recriminações que, «antes e depois», choveram de uma banda e de outra, em recíprocas acusações.»

Henrique Nascimento Rodrigues (Aqui)

Ver igualmente Fátima Patriarca (1993) O «18 de Janeiro»: uma proposta de releitura, Análise Social

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Paulo Guimarães “Cercados e Perseguidos: a Confederação Geral do Trabalho (CGT) nos últimos anos do sindicalismo revolucionário em Portugal (1926-1938)” (Aqui):

«O movimento do 18 de Janeiro, a sua preparação e os seus desastrados resultados, são bem conhecidos. Salientemos, no entanto, quatro factos que nos parecem essenciais para compreender o seu desfecho: em primeiro lugar, a antecipação decisiva da polícia (mais uma vez!) na fase final da preparação do movimento, quando consegue prender alguns dos actores chave da organização dias antes da sua eclosão; em segundo lugar, o isolamento da iniciativa operária, pois falharam novamente as ligações com os militares, o que deixou o movimento incapaz de resistir à reacção do Estado, mesmo se as acções previstas fossem bem sucedidas; em terceiro lugar, o facto da pressão exercida pelos comunistas terem empurrado a CGT para uma acção temerária e para a qual não estava preparada55; finalmente, a descoordenação das acções revolucionárias e o fracasso de quase todas revelam não só as deficiências técnicas da própria organização como também o isolamento da militância operária face às “massas” trabalhadoras. (…) A análise da documentação hoje depositada no AHS [Arquivo Histórico Social] evidencia o esforço de reanimação da vida sindical em três momentos tendo em vista o reforço da CGT como força revolucionária: primeiro, nos meses que se seguem ao 28 de Maio de 1926; depois, entre os finais de 1929 e o ano de 1932 e, finalmente, em 1934. Esse esforço foi seriamente perturbado pela eficácia policial, pela ofensiva patronal apoiada pela acção do Estado e pelas profundas clivagens ideológicas que atravessava a militância social. Na sequência desses esforços, os sucessivos embates contra o novo regime autoritário, em 1927, em 1931-1932 e, finalmente, em 1934, conduziram a um contínuo depauperamento de recursos materiais e humanos, revelando a incapacidade operacional da CGT. O investimento progressivo da militância libertária na sua organização específica ao longo dos anos ‘30 pode ser assim interpretado, simultaneamente, tanto como uma reacção às condições adversas em que ela se exercia como também uma resposta à inoperância estratégica do anarco-sindicalismo como força revolucionária. Nesta perspectiva, o episódio do atentado contra Salazar constituiu uma tentativa desesperada de romper, através da propaganda pelo facto, o isolamento a que o novo regime tinha condenado os anarco-sindicalistas e, afinal, todos os seus opositores.»

MUHERESMGARNDE

“18 Janeiro 1934” Texto da historiadora Irene Pimentel (Aqui):

…/ No processo de organização do movimento de resistência aos decretos sindicais do Estado Novo, revelar-se-ia assim dominante um projecto insurreccional, programado inicialmente pelos comunistas e anarquistas, organizados em Comités Sindicalistas Revolucionários (CSR), em conjunção com forças reviralhistas. (…) A polícia e o governo comportaram-se como se desejassem que o movimento deflagrasse para, em seguida, desmantelá-lo e reprimir os envolvidos. Parecendo estar ao corrente dos preparativos da «greve geral revolucionária» de 18 de Janeiro de 1934 (…) As adesões à «greve geral» de dia 18 acabaram por se revelar reduzidas, registando-se paralisações e acções diversas em Lisboa, Coimbra, Leiria, Barreiro, Almada, Martingança, Silves, Sines, Vila Boim (Elvas), Algoz-Tunes-Funcheira e na Marinha Grande. Na noite de dia 17, em Lisboa, rebentou uma bomba no Poço do Bispo e foi cortado o caminho-de-ferro em Xabregas, ao mesmo tempo que explodiam duas bombas na central eléctrica de Coimbra, colocada por anarquistas. Só na Marinha Grande, onde as lutas anteriores dos vidreiros tinham criado um ambiente propício, se foi mais longe: sob o impulso do sindicato (onde predominavam os comunistas), grupos de operários ocuparam o posto da GNR, o edifício da Câmara Municipal e os CTT, proclamando o «soviete da Marinha Grande». Tropas vindas de Leiria tomariam conta da vila poucas horas depois, ficando-se «greve geral insurreccional» por aí, com o governo a aproveitar para intensificar a caça aos libertários e comunistas. (…) O «18 de Janeiro» marcaria uma ruptura histórica no movimento operário português e o fim de uma época. Em primeiro lugar, foi o fim de mais de meio século de um sindicalismo sempre perseguido mas livre. O fracasso dos acontecimentos de 18 de Janeiro de 1934 levaria também ao fim da hegemonia do anarco-sindicalismo no movimento operário e sindical português, devido à violenta repressão que desabou sobre a CGT e o movimento libertário, que revelaram grandes dificuldades de sobrevivência na clandestinidade. Mais apto em actuar nessas condições adversas e passando a partir de então a hegemonizar a oposição ao regime, o PCP também viria a sofrer uma mudança, abandonando gradualmente o seu carácter ainda «pré-leninista», muito marcado pela herança anarco-sindicalista e pela colagem ao reviralhismo. Finalmente, a partir de então, a nível do regime salazarista, derrotados os anarco-sindicalistas e os reviralhistas à sua esquerda, e os nacionais-sindicalistas à sua direita, o Estado Novo erigiria os comunistas como seus principais inimigos. /…

Ver ainda Colectivo Libertário de Évora: 18 de Janeiro de 1934: depoimento colectivo de diversos militantes confederais ligados à sua organização

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