A deriva racista nos campos de Beja

Posted on 18 de Janeiro de 2013

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Corre no ar, à volta dos campos de Beja, um clima de conflituosidade social que vem instigando uma perigosa deriva racista. Ilustrada pelo gravíssimo problema humano da exploração de imigrantes, fruto das exigências sem escrúpulos das grandes produções do olival intensivo, esta deriva é aproveitada marginalmente pela extrema-direita que pretende emergir do conservadorismo tacanho plantado à sombra do castelo de Beja.

Torna-se cada vez mais um incómodo circular por Beja cruzando o olhar com as mensagens xenófobas e de extrema-direita do PNR que invadiram a cidade. Não pela sua afixação pública entenda-se, dado que a livre expressão cabe a todos sem restrições, mas por ver que ninguém parece reagir à mesma. Salvo uns ocasionais autocolantes “antifa” sobrepostos, parece que os proclamados ou já nascidos resistentes antifascistas da cidade alentejana, ou já se foram todos embora para o aconchego do lar ou, no cenário mais tenebroso, acham de somenos importância responder aos slogans nacionalistas desses energúmenos. Seja porque o populismo da sua propaganda local ser básico e coincidente com as reivindicações da região (das acessibilidades, à defesa do Museu de Beja, do Politécnico, ao turismo do Alqueva ao reerguer da produção nacional, da agricultura e do comércio de proximidade); seja, no fim de contas, pelo eterno receio de se enfrentar esse abismo que é o nacionalismo. É que sob esse manto politico ou mesmo consensual, a agenda racista do PNR é tão evidente e preto no branco, como é o seu slogan racial de que “a coisa está preta”. Assumindo o nacionalismo como ética e valor supremo, defendem “vigorosamente a preservação e valorização da nossa unidade étnico-cultural” que na mais ignóbil das ignorâncias depreendem apenas nos “laços de sangue”, “civilização” e “matriz” europeia, como se não fossemos nós resultado genético e sobretudo herdeiros culturais de um mediterrâneo de duas margens e muitos povos (africanos, europeus, orientais, etc.).

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Como assistimos na Grécia, o populismo da extrema-direita eleva-se nestes tempos numa reiterada estratégia que culpabiliza todos os males contra o “outro” e num ataque sem precedentes às populações imigrantes. Se aqui essa deriva racista já estava inscrita desde há muito contra “o outro” cigano, hoje esse deliberado discurso de ódio, veiculando medo e insegurança, encontra em tempos de desemprego galopante as condições ideias para crescer. Não é pois a propaganda do PNR que incomoda por si só, mas será o seu acolhimento, ou a apatia de quem a ignora, prosseguindo esse caminho da deriva racista. Não pois por obra dessas espécies nacionalistas, mas fruto do contexto social, e das condições com que o imigrante dia-a-dia se depara nos campos de Beja. Em última instância, por obra sim, de quem os emprega e de quem deliberadamente olha para o lado, como se essa “outra gente” não fosse gente.

Em Selmes, na Salvada, em Baleizão e em tantos outros vastos campos alentejanos nos últimos 5 anos, a produtividade agro-industrial abriu as portas para que redes mafiosas se instalassem a coberto da legalidade outorgada pelas empresas de trabalho temporário, impondo a continuada extorsão dos reduzidos salários contratualizados em troca de trabalho de sol a sol; impondo a esses novos trabalhadores rurais do Sul, condições de habitação e alimentação deploráveis e de verdadeira escravatura. Os receios e os conflitos locais com grupos de esfomeados e miseráveis – sobretudo romenos, entre tailandeses, vietnamitas ou nepaleses – não será nunca de maior desespero para quem vive em tais condições. Sob o medo e sob a violência física dessas redes de tráfico de mão-de-obra ilegal no Alentejo. Máfias que não perdoam, como não perdoam as autoridades portuguesas ao imigrante ilegal, que assim vive em constante desespero. E porque são baratos, “imbatíveis na capacidade de trabalho” tornaram-se, como referia ao jornal Público o presidente da junta de freguesia da terra que leva consigo o símbolo das lutas camponesas, Baleizão: “um mal necessário, senão a azeitona não era apanhada”…

Não apenas mais vozes, mas mais ação, deve necessariamente haver para contrariar esta situação que pretende justificar com o vale-tudo estes novos campos do Sul. Campos onde desaparecem como nunca antes vistos as conquistas laborais, ao desempregado se contempla quanto muito “a sorte” de um qualquer trabalho precário e ao imigrante sobra o regresso às mais desumanas relações de exploração entre terra tenentes, senhores hoje empresários agrícolas, e trabalhadores rurais. Nessa escalada apenas a solidariedade, a denúncia e a luta pelo fim dessas condições, irá permitir um inverter da situação de uns e de todos e travar essa perigosa deriva racista.

Filipe Nunes

Crónica publicada hoje, 18 de Janeiro no Diário do Alentejo

O olival de Beja não dá só azeitona (Expresso 24.11.2012)

Imigração no Baixo Alentejo ameaça tornar-se um grave problema social (Público 24.11.2012)

Prometiam-lhes o “paraíso” mas viram o Inferno no Alentejo (Público, 11.08.2009)

Imigração: Várias explorações agrícolas no Alentejo “não seriam viáveis” sem imigrantes

Bispo de Beja denuncia ”indícios“ de trabalho escravo no Alentejo

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