A Memória e o Fogo: Portugal visto de Espanha

Posted on 24 de Janeiro de 2013

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jorge valadas la memoria y el fuego

O olhar crítico de Jorge Valadas sobre Portugal em A Memória e o Fogo. Portugal: O Cenário Invertido da Eurolândia, publicado pela Letra Livre em 2008 (com reedição de 2010) foi editado em finais de 2012 em Espanha pela  Pepitas de Calabaza (a edição original data de 2006 pela francesa L’Insomniaque).

Aqui ao lado, La memoria y el fuego. Portugal: la cara oculta de Eurolandia, com tradução de Quim Sirera, tem tido uma merecida atenção. Sobre as pertinentes reflexões de Jorge Valadas, autor de diversas obras sob o pseudónimo de Charles Reeve desde os anos 70 – e recorde-se a conversa que tivemos na Alambique nº 3 –, eis alguns dos ecos espanhóis às mesmas:

“Esta compilação de pequenos ensaios-artigos sobre a situação económica, social e política no Portugal actual são uma “hermosa patada en las partes”. Porque Espanha necessita de Portugal mais do que nunca, um país cuja observação nos permite descobrir em como, se continuarmos a seguir Alemanha, França ou Inglaterra como exemplos e amigos, acabaremos como os nossos amigos, a praia atlântica da península, com um deserto onde houve bosques, um salário mínimo legal de 2€ por hora, uma anestesia social alimentada pela mentalidade de um “salve-se quem puder” injectada com sabedoria e poucos escrúpulos, com uma Igreja e latifúndios hereditários que mantem as rédeas da carroça para que os burros continuem a puxar sem ver nada para lá das palas. Esse falso optimismo imposto por interesses privados, que nos converte em escravos da nossa ignorância e súbditos da falta de perspectiva. Este livro é necessário em Espanha, Portugal: la cara oculta de Eurolandia, como é o subtítulo, fala mais do nosso futuro que do nosso passado, mais de nós mesmos que dos nossos vizinhos.

Livraria La Buena Vida, Madrid. 16 de Janeiro de 2013

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« Portugal, entre Eurolandia e Irmânia

Zeca Afonso cantava a Grândola morena como terra de fraternidade na canção que se converteu na senha de saída à chamada “revolução dos cravos”, e como se sabe se estes não se cuidam, ou se alguém faz tudo para que se estraguem, murcham.

O livro de claros tons combativos e libertários que acabo de ler (“La memoria y el fuego”. Pepitas de calabaza, 2012) mostra as voltas em que se tem movido um dos países da península ibérica no último século: entre momentos insurreccionais e esperançados e os posteriores  tempos de ressaca nos quais os bombeiros de serviço deitam para o lixo todas as conquistas alcançadas / perseguidas pelo povo. Este olhar é feito a partir da actualidade, na qual Portugal é exprimida como uma laranja pelos centros de decisão europeia; tarefa castradora  que parece ter deixado desarmado e desalmado o povo português que parece incapaz de revoltar-se perante os acontecimentos daqueles que mandam desde fora das suas fronteiras, com as suas cumplicidades internas.

O texto do lisboeta / parisiense Jorge Valadas (que apresenta este primeiro livro assinando com o seu próprio nome, anteriormente os seus textos iam assinados com o nome de um militante sindicalista revolucionário, Charles Reeve) pode servir como uma vacina contra o conformismo e a falta de esperança; perante o panorama desolador do presente Valadas retrocede ao passado para ganhar impulso e explorar la memória dos perdedores, dos vencidos, emulando a óptica proposta por Walter Benjamin nos seus estudos sobre a história. É destacado, não obstante, que se o alemão observava o anjo de Paul Klee como metáfora da tristeza que surgia ao olhar para atrás,  e observar aquela paisagem de ruinas, aqui o olhar do autor assemelha-se mais ao anjo da catedral de Reims, com o seu sorriso alegre e esperançado e o seu olhar para a frente, a que alude sabiamente Robert Antelme.  Como digo, a posição de Valadas não é a do derrotado, senão a de quem revendo a história popular escuta nela o clamor da rebeldia, da revolta contra o insuportável estado das coisas; a sua clara aposta é a de que há lugar para a utopia, para a irmandade, e para o demonstrar bastam os sinais, que como kairos, tem surgido ao longo do tempo. Se se passou uma vez porque é que não se voltará a passar? Se se passou diversas vezes porque é que não se vai repetir? Assim é a luta, que segue mais o modelo do rio Guadiana que o da ampla e linear perspectiva Nekvski de que falaria Vladimir Illich Ulianov na luta contra as ilusões acerca  do caminho da revolução. Certos ares de família podem-se constatar com Jacques Rancière, o das Revoltas logicas, nas suas tentativas de remexer nos arquivos e nos sonhos operários e populares.

Mas a coisa não fica por aí, e o ensaísta leva-nos a penetrar nas complexidades dos debates culturais e ideológicos que se tem mantido no país luso. Mudamos dos ares dominantes encurralados pelo estalinismo aos tons inquisitoriais que muitas vezes apontam as tendências de esquerda com uma acritude não dissimulada como quem trata de renunciar as pretensões da autenticidade radical. E não nos salvam as análises de diferentes posturas derrotistas de alguns intelectuais e de alguns críticos que no seu momento colaboraram na implantação das medidas neoliberais e das suas formas políticas capital-parlamentares, que diria Alain Badiou; os pensadores críticos, e as suas obras, são silenciados pelos poderes dominantes nas distintas esferas (políticas e mediático-editoriais). Destaca-se o papel dos chamados “socialistas” no assentar do injusto statu quo e no terreno da domesticação das massas nas datas posteriores ao fim do salazarismo.  Neste, e em outros campos, não escasseiam os casos e as coisas, nem os nomes e apelidos de pensadores e criadores de opinião, alguns de cujos textos e/ou posicionamentos são rastreados, para não dizer esfolados nalguns casos.

Permita-se-me recorrer a uma recordação pessoal, dos anos posteriores ao Abril de 1974. Indo a Lisboa, passamos a noite em Ciudad Rodrigo e antes de empreender a marcha fomos a um café …o dono do estabelecimento aconselhou-nos, inteirado aonde íamos, que comprássemos de tudo já que lá… com um tom que procurava cumplicidade, como quem diz tenham em conta que nos somos os hospedeiros e eles, pobrezinhos…Que sirva este exemplo como sintomático:  no geral os cidadãos espanhóis olham por cima do ombro a vários dos seus vizinhos: mais em concreto aos do oeste e aos do sul; com os do norte a coisa já canta de outro modo. Pois bem, o livro que tenho nas mãos e um magnífico modo de abrir os olhos perante um país ignorado, desconhecido, um antídoto frente aos estereótipos e simplificações… que consegue, dando a volta a afirmação machadiana, que depois da sua leitura pode dizer-se que se aprecia o que se conhece.

Encerra o livro com uma citação que nos faz comungar com as palavras de Ângelo Jorge, na sua Irmânia : não, não somos todos iguais. Entre nos há a classe dos que mandam e a dos que obedecem, a casta dos que possuem  e a dos que nada tem, os que gozam e os que trabalham, e  os sons, em contraponto, de uma canção tradicional do Alentejo: Maldita sociedade / Tão mal organizada / Quem não trabalha tudo possui / Quem trabalha nada tem / O homem que trabalha não deve nada a nada / O que não trabalha deve tudo o que tem. »

 Iñaki Urdanibia, 5 de Novembro de 2012

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