Por entre anarquistas alentejanos…

Posted on 28 de Janeiro de 2013

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Impelido pelos acontecimentos falhados da Greve Geral Insurreccional de 18 de Janeiro de 1934, o anarquista algarvio José Correia Pires percorre em fuga o Alentejo auxiliado pela solidariedade de diversos camaradas. Da Funcheira, Lousal, Ermidas do Sado, São Domingos, Beja e à fronteira com Espanha em Mértola, Correia Pires deixou-nos um retrato sentido dos anarquistas alentejanos e outros opositores, na época final de um movimento reprimido pelo Estado Novo e tomado pelo Partido Comunista.

O testemunho de José Correia Pires – já escrito em 1975, altura em que ajuda a fundar o Centro de Cultura Libertária – é no seu estilo de oralidade, uma leitura empolgante que nos recorda os anarquistas ferroviários da linha Sul Sueste, de Santiago do Cacém, Hernâni da Silva ou o rural Silvério Marques, ou Valentim Adolfo João das Minas de São Domingos, sem esquecer a referência ao “velho Gonçalves Correia um poeta e romântico do anarquismo” entre tantos outros.

 Por entre anarquistas alentejanos…

…. / No dia 7 de Janeiro de 34 fui surpreendido com um «achado explosivo» no sítio chamado serro grande que pôs em alvoroço toda a vila nem mais permitiu que eu ali permanecesse. Coisas do acaso mas que foi motivo para fazer cair sobre Messines uma onda de repressão e terror nunca outra jamais ali sofrida! A coisa passou-se assim: o 6 de Janeiro, nesse ano, foi a um sábado e houve, como quase sempre nestes dias, muitos casamentos em toda a freguesia; um desses casamentos situou-se nas proximidades do «Penedo Grande», onde casualmente tinham sido postos os explosivos, ocorrendo que é costume destes sítios, festejarem o casamento um dia na casa do pai da noiva e outro na casa do pai do noivo, para um e outro lado se desloca toda a gente e num ou noutro lado fica deserto o casal. É uma quadra do ano onde mais se aguça a vontade de alguma coisa ter e os que por condição ou costume se habituem à pilhagem nesta altura, mais se requintam nas suas partidas de furto. Assim aproveitando a deslocação do casamento para um dos lados, o outro assaltaram-no os rapinantes e muitas coisas roubaram. Do facto promanou toda uma alteração popular e em grupos numerosos toda a gente procurava o roubo e não houve canto nem buraco que não fosse visto e investigado. Por azar o «achado» estava introduzido num valado, metido em alcatruzes de nora, envolto em aparas e em condição de para sempre ali ficar, sem estar sujeito a deterioração ou ainda à margem de qualquer desaire. Quis o acaso que entre os que o roubo procuravam, fosse o diabo com «escola» e lembrasse ver bem os valados que bem podia ser, terem-no ali escondido. Assim andou e farejou e a certa altura viu que, em dado local estavam pedras mexidas e lembrou-se que ali estaria o roubo e quanto mais mexia mais se certificava que havia gato. Foi indo e encontrou os alcatruzes ou a «mina de ouro» que procurava. Os indivíduos nem sabiam o que aquilo era e houve um deles que ia tendo a imprudência de fazer estoirar «aquilo». Claro que entretanto fizeram alarido e dirigiram-se para a vila com o «achado» e foram entrega-lo à GNR local que, como era natural ficou apavorada e a primeira reacção foi comunicar para Silves, de Silves para Faro e umas horas depois Messines parecia uma cidadela tomada de assalto… Claro que me pus a «fancos» com a «brincadeira» e não fora quem me fosse avisar imediatamente, ter-me-iam prendido e ao Barroso, porque estávamos juntos. Muitas prisões, foi uma casa assaltada, meus irmãos presos e todas as casas de pessoas da minha família e amigos rebuscadas e de todos exigiam que lhes dissessem o meu paradeiro. Foram uns momentos difíceis, tanto mais que era nesse tempo comandante da Polícia em Faro um tal Rosa Mendes, um furibundo salazarista que me tinha particularmente bicoque por se ter enganado comigo, aquando de uma prisão minha, e ter interferido no sentido de facilitar a minha liberdade. Recordo que certa noite, estava eu incomunicável no Aljubre, a altas horas da noite apareceu-me ele, acompanhado de alguns agentes, como que muito preocupado comigo e a perguntar-me porque estava preso, porque não dizia à Policia tudo o que sabia e que a Policia precisava de saber, bem como, se não tinha filhos e se não era amigo dos filhos e se estar ali como estava me não incomodava. Naturalmente respondi que sim, mas não sabia dizer que a política queria, naturalmente, notou num tom de linguagem simples que parece tê-lo convencido! «Pois bem, disse ele – você amanhã vai à polícia e tudo o que souber diz, arranca lá de dentro tudo o que lá tem e imediatamente vamos resolver a sua situação». Na verdade voltei novamente à PIDE, mas desta vez para fazer os autos como eu os expus e não como eles o queriam, isto porque ele, Rosa Mendes, o deveria ter determinado. Daqui ao meu julgamento, decorreram três meses e tudo me correu favoravelmente, supondo-o ainda hoje, por influência de Rosa Mendes. Depois disto, compreende-se a raiva do homem pela minha reincidência em persistir lutando e desta vez com uma «carga tão razoável» às costas: – responsabilidades num movimento que se sabia extensivo a todo o País…

Via-me agora numa situação difícil e tinha que me esconder até que pudesse evadir-me do circulo que me envolvia, procurei ainda uma casa ou outra de um ou outro amigo e por ultimo refugiei-me num moinho de vento e ali estivemos, eu e o Barroso, até ao dia, creio que 16, em que por serras me dirigi a S. Marcos da Serra, onde permaneci em casa de um amigo, democrata convicto, chamado J. Ventura Vargas, onde fui obsequiado com um trato e carinho que jamais esquecerei e aqui deixo com a mais viva expressão de reconhecimento e homenagem, o seu nome ligado deste modo, à história das lutas contra o fascismo português!

Quando saí do moinho separei-me do Virgílio Barroso que teimou em ir a casa, não obstante o perigo que representava, realmente sucedeu, foi preso! Eu estava em S. Marcos da Serra quando a 18 rebentou o Movimento, soube por esse meu amigo que se informou de tudo. Ali estive fechado em sua casa uns 8 dias, depois resolvi encaminhar-me para o Alentejo onde tinha família, mas sempre advertido, de um cuidado próprio das circunstâncias e de que fui bem sucedido. É conveniente dizer que tive largo apoio em toda esta quadra, talvez das mais dramáticas que vivi, valendo-me sobretudo o ser muito conhecido e de não regatear o auxílio fosse de quem fosse… S. Marcos viajei numa guarita de guarda-freio até à Funcheira, entroncamento ferroviário dos mais importantes do S. Sueste, onde tinha casualmente um grupo de bons camaradas e amigos que, conscientes do perigo em que estavam, não sabiam o que haviam de fazer. Desde o chefe da estação, chamado M. Romão, aos agulheiros e guarda-freios de serviço, todos se puseram ao meu serviço e morava nesse tempo na Funcheira um velho camarada de nome Guerra, que era por sinal, o arrendatário dos restaurantes do S. Sueste. Todas estas circunstâncias, que muito me favoreceram, provam como neste tempo tínhamos certo ambiente, especialmente nos ferroviários do Sul e Sueste. Eu mesmo, nesse tempo tinha muitos amigos nos caminhos de ferro, onde por volta de 27 e 28, trabalhei.

Estes episódios só merecem realce pelo que representam no aspecto da solidariedade e que sem ela não teria sido possível defender-me. E aqui cabe diz que sempre fui inclinado para a prática da mesma, desde esta tão difícil provação fiz-me todavia mais solidário. Sempre entendi que a luta não é possível sem solidariedade, mas a partir desta perseguição comprovei que eu mesmo não teria resistido se não fora tanto apoio, tanta ajuda que só representam o lado mais positivo do nosso movimento.

Da Funcheira segui para as Ermidas Sado, onde tinha família e sempre cauteloso, antes de me aproximar dos meus, dirigi-me ao chefe da estação, casualmente um irmão de um camarada nosso, Alberto de Azevedo e mais ou menos camarada também. Em contacto com os meus familiares soube que já ali tinha sido procurado e era preciso muitíssimo cuidado, deste modo fui para casa de uma sobrinha recém casada e que morava na Mina do Louzal. A minha sobrinha só tinha uma cama e como era no inverno não tiveram outro remédio senão deitarem-me com eles na mesma cama. Estes episódios só merecem realce pelo que representam no aspecto da solidariedade e que sem ela não teria sido possível defender-me. E aqui cabe diz que sempre fui inclinado para a prática da mesma, desde esta tão difícil provação fiz-me todavia mais solidário. Sempre entendi que a luta não é possível sem solidariedade, mas a partir desta perseguição comprovei que eu mesmo não teria resistido se não fora tanto apoio, tanta ajuda que só representam o lado mais positivo do nosso movimento. Neste domínio não sei avaliar quanto devo e centenas de anos que vivesse a espalhar solidariedade a rodos, não pagaria o que em solidariedade devo!

Em casa desta minha sobrinha não pude permanecer muitos dias, pois certo dia estando só com ela a almoçar, há uma vizinha que sem se anunciar entra pela casa adentro e surpreende-nos. A mulher não me conhecia, mas não era prudente dizer-lhe tudo e não lhe dizer nada também a intrigaria, por último fui eu mesmo que lhe expliquei a minha situação com o que muito a assustei, mas ainda assim foi a solução. A partir de agora já não estou sossegado e estabeleço o propósito de marchar para outro lado. Entretanto recordo-me de ali ter assistido a uma coisa que me apaixonou mas que não pude ver e apreciar de perto: – A minha sobrinha foi à rua e veio-me dizer  que tinha assistido a um grupo de pessoas que apreciavam um ovo mole com embrião de um cão, facto que pôs em alvoroço toda aquela gente pela curiosidade despertada. O facto surpreendeu-me muito e solicitei que a minha sobrinha se informasse melhor da coisa. Esta saiu e quando veio garantiu que tinha realmente visto o «cãozinho em miniatura» e que uma galinha o havia posto num ovo mole… Vista e analisada a coisa o farmacêutico da aldeia pô-lo num frasco com álcool. Claro que não estava em situação de mais saber, no entanto não mais esqueci o incidente e ainda hoje pesa no meu espírito o interesse de uma explicação do «fenómeno»…

A minha permanência no Louzal não podia manter-se e era forçoso arranjar sítio seguro. Valeu-me neste apuro um velho camarada, Hernâni da Silva, por sinal de um valor excepcional e com um espírito de organização e solidariedade pouco vulgares. Era de profissão carpinteiro de carros, mas a crise de trabalho no seu ofício levou-o a ser vendedor de cautelas e fazia a sua venda por vários lados incluso Ermidas. Ele era de Santiago de Cacém, mas corria quase todo o Baixo Alentejo e em todo o Alentejo conhecia camaradas, que me lembre, foi um dos que, creio, mais elementos conheceu. Fui seu amigo e admirador, as suas qualidades eram excepcionais, sem ser culto tinha dos problemas sociais uma intuição que o distinguia e, o tornavam credor de estima e respeito de toda a gente. Mantive com ele relações até á sua morte e já no leito da morte desloquei-me a Santiago para o ver pela última vez. Disseram-me que morreu como sempre viveu: – falando e pensando nas ideias, já em luta com a morte insistia em dizer que assim que se pusesse em pé, organizaria uma vinda a Almada com os camaradas de Santiago para um dia de confraternização e convívio entre todos. Era assim Hernâni da Silva e à sua memória de lutador e anarquista convicto, aqui presto a minha mais sentida homenagem!

Hernâni, assim que supôs que eu andaria por Ermidas, foi ao meu encontro e apareceu-me precisamente quando estava aflito por sair buscando novo rumo. Apreciada a situação, depressa Hernâni arranjou para onde me levar não só com a certeza do acolhimento, mas com toda a garantia que o caso requeria. Abalamos de noite, fugindo das estradas e fomos para São Domingos, aldeia que dista de Santiago uns 20 quilómetros. Ali encontrei um grupo de amigos que não poderei esquecer, mas fixei-me em casa de Francisco Augusto, um misto de comerciante e lavrador, mas especialmente homem de uma formação moral excepcional. Não sendo propriamente anarquista professo, quantos que anarquistas se confessam não teriam muito que aprender no exemplo vivo do seu porte. A sua família toda comparticipava na sua geral actividade e em cada familiar tive um amigo, que ainda hoje recordo com amizade. A vida deste homem era a de um verdadeiro apóstolo do bem, ter-se-ia dito republicano antes da República, depois deixou de acreditar na política e como por condição não podia lutar nos sindicatos, pois, como já vimos, era comerciante, abraçava ideias progressistas e todos que avançados fossem, via com bons olhos, tudo dando para que o mundo fosse melhor. Em sua casa reservou-me um quarto e só a sua família e mais um ou dois amigos sabiam da minha estada ali. Esta nobre gente não sabia o que me havia de fazer e o lembrar-me de tudo isto, faz-me pensar quanto realmente fiquei a dever a tanta gente…

Mas enfim, ali estive e à noite passávamos muitas horas em conversas sobre ideias, ainda sinto viva a sensação agradável que me davam todos, na sua total aprovação do que então como hoje, considero ser a chama do meu ideal. Os seus filhos chamavam-se, por ordem de idades, António, mas chamavam-lhe Toninho, Feliz, Paz e Liberdade. A vida desta gente era muito curiosa e já o facto dos nomes que escolheu para os filhos atestam que Francisco Augusto foi sempre um homem com ideias. Mas para além de tudo era um homem com muito interesse e com uma filosofia das coisas e da vida que distinguiam muito do comum das pessoas. Na sua casa estava o marco do correio e toda a correspondência ali era distribuída. Ele mesmo era uma espécie de escrivão e naquelas redondezas era frequentemente procurado, para antigos manuscritos que ali lia com relativa facilidade, sendo uma espécie de paleógrafo o que lhe dava efectivamente certa distinção. Além de tudo, era um excelente amigo mantinha boas relações com muita gente e quantos ali passavam o tinham que conhecer, pois era a figura mais representativa da terra. Recordo-me, de uma ou duas vezes me perguntar se eu estava na disposição de me encontrar com um ou vários elementos que ali iam, um viajante e um outro, chefe da estação e considerados comunistas ferranhos. Disse-lhe que caso a minha liberdade não perigasse, que não me importava e um certo dia introduziu-me no quarto um individuo, tendo-lhe dito que «eu era um viajante que ali tinha ficado, que poderia falar à vontade comigo pois era pessoa de confiança», ao que o individuo se não fez rogado e começamos a falar. Pouco tempo depois aproximou-se a hora do jantar, a conversa subiu de tom e o homem em questão era um autêntico militante do PC que, habituado às suas arengas, depressa se estendeu. Deixei-o caminhar e só muito subtilmente fui investindo até chegar a uma altura em que me assenhorei da situação e pus o nosso homem em dificuldade. Digo isto não por vaidade, mas sinto prazer em recordá-lo e o facto explica-se quando era certo ter uma memória privilegiada, estar numa fase e idade cujo entusiamo e vigor me davam de algum modo larga vantagem sobre os meus contendores. Nesse tempo (e ainda hoje suponho que no campo das ideias não há argumento que me atrapalhe, nem astúcia ou dialéctica que me embatuquem), a argumentação dos comunistas circundava em volta dos «êxitos da revolução russa» e a ideia de «Ditadura do Proletariado» não era mais do que uma simples ponte de passagem à sociedade que os anarquistas propagavam, como já havia dito Lenine. Os que estudavam nas obras de Marx, Engels, Lenine ou de tantos outros corifeus de bolchevismo, davam-me a ideia de quem estuda ou decora um papel ou sermão e o terá de repetir sem a falta de uma silaba, quando interpelados no meio do discurso perdem-se, descontrolam-se. Tive dezenas de casos destes e a sua cultura socio-económica estava cheia de vazios que uma discussão séria depressa punha a descoberto. No caso do nosso chefe de estação também foi assim e o facto merece realce, precisamente pela alegria que motivei ao nosso amigo Francisco Augusto, na medida em que viu desautorizadas as ideias, perante os nossos argumentos, do seu «imbatível» Conde de Matos, assim se chamava o homem. E nós, embora ficássemos amigos, não mais nos vimos, embora este ainda viva e uma vez ou outra tenha notícias dele. Em São Domingos havia mais um camarada chamado Candeias, também já falecido, excelente camarada e muito entusiasta das ideias. De Santiago ia um ou outro camarada ter comigo e mantinha-me em contacto com a organização.

Perante a teimosia da Guarda, que entrara em sua casa, desfechou sobre eles a sua «caçadeira», matando um e correndo para o outro, apanhou-o e lançou-o ao chão e pretendendo linchá-lo, pondo-lhe um pé em cima de uma perna e a outra distanciando até o rasgar, só o não tendo feito por este lhe haver pedido em nome dos filhos que o não matasse. Assim era Silvério Marques. Entregou-se depois á prisão, foi julgado, esteve algum tempo no Limoeiro mas passado pouco tempo foi amnistiado! Bons tempos…

Desloquei-me depois para uma quinta de um antigo militante rural, chamado Silvério Marques, que como em todo o lado me fez uma recepção imerecida e ali me conservei alguns dias. Este Silvério Marques era tão grande no físico como na alma, pois devia ter cerca de 2 metros de altura, com um corpo de gigante! Tinha sido elemento activo dos rurais e quando aí por volta de 1916 se agitou naquela região, Vale de Santiago e imediações, o problema da distribuição de terras entre camponeses, teve papel preponderante nessa luta. Quando certo dia forças da GNR o foram a casa prender, reagiu e disse que não pensassem prendê-lo, pois não se deixava prender. Perante a teimosia da Guarda, que entrara em sua casa, desfechou sobre eles a sua «caçadeira», matando um e correndo para o outro, apanhou-o e lançou-o ao chão e pretendendo linchá-lo, pondo-lhe um pé em cima de uma perna e a outra distanciando até o rasgar, só o não tendo feito por este lhe haver pedido em nome dos filhos que o não matasse. Assim era Silvério Marques. Entregou-se depois á prisão, foi julgado, esteve algum tempo no Limoeiro mas passado pouco tempo foi amnistiado! Bons tempos…

Ainda em casa de Silvério Marques vivi um episódio que deve ser relatado: Certo dia preparou o Silvério a carripana e preparando-se para ir ao Cercal, convidou-me se queria ir com ele. «Ali ninguém te conhece, acompanhas-me, à muitos anos que não se metem comigo e ninguém vai supor quem possa ser…» Aceitei o convite e fui, eu, ele e o filho na carripana até ao Cercal, que ainda distava do Monte do Silvério uns 20 quilómetros. O pior é que estávamos ali isolados e não tínhamos tido conhecimento de que em Santiago e em Sines, tinha feito prisões e que estava tudo por ali muito inflamado, para maior complicação e certo receio meu tinham prendido nessa tarde um camarada de nome Manuel Estelano e por sinal passou entre uma patrulha da Guarda em frente do lugar onde me encontrava. Assisti aos comentários mais estapafúrdios, mas que em suma atestavam a  situação em que me encontrava, pois diziam que a Guarda tinha ordem de prender todo o estranho que ali aparecesse. Desnecessário será dizer que me pus a «fancos» e pedi ao Silvério que nos retirássemos o mais depressa possível. Assim se fez e não se passou nada… Entretanto já não estava bem neste sítio e admiti que a Guarda por ali aparecesse a fazer uma batida, voltei a Ermidas onde preparei a minha ida para Espanha.

Em Beja também tinha alguns amigos e nesta altura era um certo revolucionário muito importante, especialmente no sector rural. Vivia ali o velho Gonçalves Carreira [Correia] um poeta e romântico do anarquismo, Caetano Pires, Peladino, e tantos outros que agora dos nomes não me lembro, onde me foi prestada a solidariedade que precisava.

A caminho de Espanha fui até Beja de comboio e foi o nosso camarada Alberto de Azevedo, então revisor, que se encarregou do frete… Em Beja também tinha alguns amigos e nesta altura era um certo revolucionário muito importante, especialmente no sector rural. Vivia ali o velho Gonçalves Carreira [Correia] um poeta e romântico do anarquismo, Caetano Pires, Peladino, e tantos outros que agora dos nomes não me lembro, onde me foi prestada a solidariedade que precisava. Encaminhei-me para Mértola, a caminho da Mina de S. Domingos onde me seria preparada a passagem da fronteira.

Na fronteira descalcei-me, arregacei as calças e com a companhia de um camarada de nome António Patrício, irmão do velho militante anarquista Valentino Adolfo João, excelente camarada e envolvido mais tarde no atentado a Salazar, esteve preso mais de uma dezena de anos e faleceu à cerca de três. Valentim Adolfo João estava fixado a umas dezenas de quilómetros da fronteira e fui dirigido a ele. Ali o encontrei feito agricultor, vivia com a mulher e filhos numa barraca de vime. Já nos conhecíamos por correspondência, mas quando o vi, cabeleira ao alto e desenvolta, lembrei-me da «Cabana do Pai Tomás», e Valentim dava na verdade uma excelente figura de romance. Fazia a sua sementeira e era um autêntico camponês. Fiquei ali um dia e uma noite e recordo-me que ele gozava ali de bom ambiente, nessa noite fomos visitados por uma patrulha da guarda fiscal ou os chamados «carabineiros», que decerto modo me vieram a ser úteis para a minha introdução em Espanha!…

José Correia Pires (1975)

“Memórias de um prisioneiro do Tarrafal”,

edições dêhagá. Lisboa. pp.70-84

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Acerca de Correia Pires, autor de A Revolução Social e Sua Interpretação Anarquista (disponível aqui) ver texto de Irene Pimentel (aqui). Para uma contextualização dos anos 30 no movimento anarquista ver o artigo de Paulo Guimarães  “Cercados e Perseguidos: a Confederação Geral do  Trabalho (CGT) nos últimos anos do sindicalismo  revolucionário em Portugal (1926-1938)” (aqui).

Foto: “almoço de reencontro dos anarquistas em Almada logo após o 25 de Abril de 1974, distinguiando-se da esquerda para a direita: Sebastião de Almeida, Correia Pires discursando, Emídio Santana e Francisco Quintal.” (Daqui)

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