Direitos (d)e Animais

Posted on 15 de Fevereiro de 2013

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Cave_canem

Nestes últimos 20 anos sou regularmente abordado com o tema dos direitos dos animais. Adivinha-se o facto pelo conteúdo vegetariano do meu prato, que desperta fatidicamente as mesmas perguntas de sempre onde calhe a comer. Descarto de imediato que de religião não se trata, avesso que sou às mesmas, nem tão pouco de estritos e rigorosos cuidados de saúde, pois os temperos mediterrâneos bem apurados e os copinhos que acompanham os meus refastos dão de mim, por vezes, um mau exemplo no que toca ao asséptico perfil dos manuais do vegetariano à venda nas caixas dos grandes supermercados. Algo saturado com estas conversas de costumes procuro encerrar o assunto com um lapidar: é uma questão de ética. Pessoal, antes de mais, na minha relação com os animais; mas sobretudo abrangente às preocupações do equilíbrio ecológico e social que os regimes alimentares aportam. E nesse sentido, porque posso, porque tenho uma possibilidade de escolha que me permite eleger à semelhança do meu livre pensamento e meios de subsistência, o conteúdo do meu prato.

Invocando a ética, invoco obrigatoriamente um posicionamento na minha relação com os demais seres vivos e com o meio que me rodeia, o que me leva a confrontar com o sem número de relações sociais e culturais entre humanos, demais espécies e o meio natural. A ética pessoal também aí se afirma como pressuposto de uma ética que poderíamos designar de política no sentido de almejar e lutar por uma nova perspetiva dessas mesmas relações. Pelo que o ser vegetariano apenas me faz sentido, tanto quanto faz sentido a urgência em determinar nesta Terra que habitamos relações não autoritárias e holísticas (no seu significado de harmonia e entendimento geral dos fenómenos e não travestido de mero espiritualismo freak). Que visem estabelecer modos de vida que sejam ditados pelo equilíbrio dos eco-sistemas, e encontramo-nos já em fase de os recuperar urgentemente, e pela busca incessante de neles viver de forma igualitária e com a justa distribuição dos recursos. Pelo que o vegetarianismo assim visto será sempre entendido como manifestação anti-sistema, contraposta à recuperação que o sistema mercantilista dele fez em nome de uma “alternativa” já plenamente esvaziada de sentido. O que recheia o teu prato pode nesse sentido ser mais do que simples ração, mas pode ser uma comida que não só te alimente fisicamente, como conscientemente, sabendo o que ela implicou e do que dela possa resultar. Nem sempre assim o é, mas perder esse sentido é no sentido pejorativo do termo auto reduzir-nos a gado (quando este já em si perdeu o sentido animal, para o sentido maquinal da industria e da economia).

Este é o quadro geral, certamente de forma incompleta, que argumento nas minhas habituais conversas à mesa, quando visado na condição exótica do comensal “esquisito”. A amplitude desse cenário é para mim essencial, porque acima de tudo recuso ser remetido à gaveta dos defensores dos direitos dos animais tout court. E porque, eis finalmente a razão que move este texto de opinião, me sentira injuriado se por ser vegetariano fosse posto no mesmo saco de quem recentemente “em nome” dos direitos dos animais veio a mostrar a mais viva indignação pelo abate do cão que tirou a vida a uma criança de 18 meses em Beja. Tais manifestações conseguiram suplantar a minha própria repulsa à gente que ostenta e apruma tais cães, como expressão das relações de violência que desejam impor, permitindo semelhantes desfechos, porque se afundam no mais perigoso dos autismos. Aquele que propagando uma pretensa filosofia e ética anti-especicista de defesa dos direitos animais, relativiza não apenas a dor dos implicados mas, pior ainda, menospreza a comoção humana tal e qual e à semelhança daqueles que antes acusara de ignorar a comoção animal. Defender a intransigência do “direito à vida” desse cão na equidade dessa comoção é falso (e perturbante), precisamente porque subverte a indignação e o direito ao equilíbrio que em situações como esta o homem, no seu estado social e inato, é impelido a agir; tal como no estado selvagem e natural qualquer espécie animal é impelido instintivamente a defender os seus e repor o equilíbrio. Tão pouco o mundo, seja ele natural, animal ou humano, é isento de desequilíbrios, por vezes atrozes como esse vivido em Beja. O que não significa que os justifiquemos – ou no mínimo secundarizemos – em nome de direitos que outorgamos defender, caindo naquilo que acaba por ser ironicamente mais uma manifestação do nosso antropocentrismo, e pior de tudo moralizante das outras espécies. Caindo, neste caso, por terra qualquer princípio de ética. E humana, antes de mais, porque assim o somos.

É por isso pois, que com dificuldade vejo como pode o autismo sectário de organizações ou as beneficências caridosas em nome dos direitos dos animais, abrindo flanco para a mais pura idiotice mediática que o tratamento do assunto em regra geral merece (gatinhos fofos no facebook e devotos missionários nos canis) possa realmente transmitir e levar-nos a colocar a agenda dos direitos dos animais no mesmo plano de importância que deve assumir na agenda da justiça social e da ecologia.

Filipe Nunes

Texto de opinião, publicado hoje no Diário do Alentejo

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