As Ruas. A propósito do 2 de Março.

Posted on 14 de Março de 2013

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Numerosos vieram para as ruas. Os do costume, mas muitos mais. Entre os novos e os cada vez mais velhos, as ruas transbordaram de rostos, que mais do que a urgência, traduziam a expressão de quem mais nada pode fazer senão do que sair à Rua. Ensinados uma vida inteira, em maior ou menor medida a aguentar, que a aguentar a gente vai lá, submissos e sem levantar o olhar, deparara-se a cada um, mais rápido do que esperavam, a chegada daquele fim do mês sem uma luz ao fundo. Sem saber como pagar, mais do que a ilusão do que já não se tem, o sustento dos filhos e netos. Sobre como viver. Sobreviver. E a rua fez-se de gente numerosa.

Nesta corrente o lastro de uma resignada segunda pele dos portugueses teima porém sobre os ombros. Esse fatalismo que paira na cabeça de cada um interpõe-se no caminho de quem decidido sai à rua, por si mesmo e sem côr na lapela. Na precisa altura em que cada um dera a si próprio largas à revolta, ainda que por vezes somente expressa num cartão onde não há limites para resgatar e escrever a (im)possibilidade de (sobre)viver. Em muitos deles utópica, radical, destruindo para construir. Mas a marcha afastava esses ecos, e numerosos desfilaram num passo cada vez mais mudo, abafando essa riqueza assim expressa pelo compasso ensaiado de uma única reivindicação e solução única, de um governo que cai e outro mais que quer entrar. A esperança que nasce nas ruas sem fim à vista desembocava no beco dos costumes e dos costumeiros onde a invenção de um mundo novo não cabe. E o compasso nas ruas fez-se numeroso, mas onde se queria indomável, serenou embalado em versos que não se fizeram para se estar quietos.

A semana seguinte acordou revolta no tempo. Invernil e ventoso. Abanava árvores como quem abana gente, convidando desta vez a tormenta a agitar os ares. Recolheram a casa os que no seu anonimato se escondem ligados ao mundo pela televisão e por redes sociais, que os mediando os fazem reféns sem o saberem de si próprios. As mesmas frestas dessas grades mediáticas que antes os impeliram para a Rua, aconchegam-nos da invernia que lá fora prosseguia.

Acalmando os versos da canção esta morre. Nada podemos contra os números que nos regem, identificam, vigiam e nos facturam a vida, se de gente numerosa nas ruas apenas quisermos ser. Mas podemos ser a Rua. E desfilar à segunda, à terça, em minha casa e na tua, se mais do que gente numerosa formos gente que quer fazer da fraternidade aquilo que a Grândola pede. Tomar as ruas pelas nossas mãos, para entre a ajuda mútua e a solidariedade em mil e um aspectos que podemos já hoje pensar e praticar, ajudar a resolver o fim do mês de cada um e de cada vez mais de todos. E aí sim, nas Ruas, a primavera sucede à invernia.

Filipe Nunes

Crónica de Opinião publicada no Diário do Alentejo (15 de Março)

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Outros Apontamentos do 2M (Alentejano)

Retirado do Blog do Colectivo Libertário de Évora (aqui)

« 2M Évora: foi bom, mas não conseguimos fazer melhor?

Estive profundamente envolvido na convocação da manifestação de sábado passado aqui em Évora e conto estar presente em idênticas convocatórias, apartidárias e feitas a partir da base, sem interferências das estruturas político-partidárias que, em geral, mantêm um apertado controlo sobre qualquer iniciativa a que se associem. E, como eu, ontem estiveram na rua, por todo o país, muitos anarquistas e antiautoritários, gente com que se pode contar.

Não me reconheci na totalidade do manifesto assinado pelo grupo que convocou esta manifestação, a nível nacional, e que integra o autodenominado movimento “Que se Lixe a Troika”, mas, globalmente, concordo com o que ali está escrito. Discordo profundamente de que a demissão do Governo tenha lá sido colocada como objectivo desta caminhada de protesto. É um objectivo pequenino para tanta coisa que nos falta fazer. O mais importante é demonstrar nas ruas que nada está garantido aos de cima, aos do poder, e aos que, criticando os que lá estão, espreitam a oportunidade de actuarem do mesmo modo. E não é só o PS.

Dito isto, empenhei-me a fundo nesta manifestação como cidadão e como anarquista. Outros elementos do Colectivo Libertário de Évora posicionaram-se como muito bem entenderam. Nos movimentos sociais cada um está enquanto indivíduo, na plenitude das suas características próprias, e não enquanto militante deste ou daquele grupo. Estive de corpo inteiro, sem ambiguidades, neste protesto e estaria amanhã por várias razões. É importante dizer não, colectivamente , ao fartar vilanagem em que este governo demonstrou ser perito, na peugada do governo de Sócrates, e que está a fazer com que a “balança” pese cada vez mais para o lado dos mais ricos e dos que continuam a deter e a reforçar o seu papel de domínio sobre a sociedade em detrimento dos mais fracos, dos mais pobres e dos excluídos. O Estado e os negócios (o Poder e o Capital) sempre se confundiram, mas hoje a promiscuidade é total e é preciso dizer na rua que estamos fartos. Fartos deles e das suas instituições corruptas. Fartos deles e das suas negociatas. Fartos de uma classe que apenas se representa dizendo que nos representa. Mas não nos representam de modo algum.

Para além disso, no caso de Évora (e noutros muitos locais do país), é necessário demonstrar também, pelo exemplo e pela combatividade, que é possível haver organização e mobilização à margem dos partidos e que o monopólio da rua não pertence a ninguém, ao contrário do que até há muito pouco tempo alguns pensavam.

Haver um grupo de pessoas, individualmente consideradas – embora se o quiserem ser que sejam militantes deste ou daquele partido, fiéis desta ou daquela igreja, seguidores desta ou daquela filosofia, leitores deste ou daquele poeta – que se organizam e desencadeiam acções como as de 15O, 12M, 15S ou agora 2M não é irrelevante para os dias que estão para vir.

Em Évora a manifestação deste sábado foi também muito participada (tanto ou mais do que a de 15 de Setembro) e emotiva e teve as características de outras regiões: os manifestantes eram mais velhos e os jovens eram poucos, muito menos do que em Setembro. E isso percebe-se: aos jovens, aos desempregados, aos que já perderam quase tudo é necessário acrescentar um outro patamar de luta – e, apesar de todo o simbolismo, de toda a força e de toda a energia manifestada no sábado hoje resta quase que um amargo de boca: é preciso mais, fazer mais, sermos muitos é bom, mas isso não chega…

Muitas pessoas, ontem e hoje, passado o grande “banho” e a catarse colectiva, repetem o mesmo: fomos muitos e tudo ficou na mesma. Não ficou exactamente na mesma, mas quase. Os políticos do PS, PCP, BE acham que podem aproveitar – politicamente falando e dela extraindo dividendos – esta manifestação. Eu nem nisso acredito. Acho que da manifestação apenas ficou esse rasto ténue de que afinal temos força. Mas o objectivo último da manifestação, imposto muito pela participação do BE e do PCP no grupo que a convocou, era quase imbecil: a demissão do governo. Como muito bem equaciona a Gui Castro Felga haveria alguém que acreditasse que o governo se iria demitir fosse qual fosse a dimensão da manifestação? Talvez. E, por isso, hoje este sentimento de muitos parecido com fracasso.

Mas há tanto a fazer, tantos objectivos a cumprir. Esta manifestação deveria ter-nos dado força para nos associarmos, criarmos solidariedades e redes, partilharmos a alegria da revolta nas ruas, criarmos espaços de luta e afirmação. No entanto, tudo foi demasiado sereno, demasiado virado para o consenso, para as cantigas que nos animam a alma e, apesar delas, do seu simbolismo e da sua força, é como se beliscássemos apenas a couraça de um elefante que se recusa a mudar de posição.

Será que as centenas de milhar de pessoas que nos manifestámos, gente como nós, não conseguimos fazer melhor? Ou, como refere também Gui Castro Felga,: “lutar é um verbo, não um substantivo. Conjuga-se.” O que falta para o conjugarmos colectivamente?

frederico »

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Retirado do Blog A Cinco Tons (Aqui)

«Crónica de uma tarde memorável

Cerca de duas mil, duas mil e picos pessoas saíram esta tarde à rua em Évora para se associarem ao protesto e à indignação convocada sob o lema “Que se lixe a Troika! O povo é quem mais ordena”. O número de manifestantes foi sensivelmente o mesmo do dia 15 de Setembro, em que Évora viveu uma das maiores manifestações dos últimos anos.

Convocada a concentração para as 16 horas, desde logo muitas pessoas começaram a juntar-se em torno das canções de José Afonso e de poemas de Ary dos Santos trazidos pela voz de um filho da terra, Francisco Armando (Chico Fumaças para os amigos), que tem estado fora, mas que hoje regressou para juntar a sua voz aos seus conterrâneos, após o que foi lido o manifesto da manifestação, por um dos membros do pequeno grupo organizador da concentração/manifestação em Évora.

Cantou-se depois o Grândola, numa espécie de ensaio geral, quando às cinco da tarde, como estava previsto, com muita gente e muita indignação a manifestação saiu da Praça do Giraldo, passou pelo Largo Camões, pelo Templo Romano e pela Rua 5 de Outubro, desembocando de novo na Praça do Giraldo, onde vários grupos se tinham mantido à conversa e ao som de música de protesto, quase sempre pela voz de Zeca Afonso.

Foi então tempo para as intervenções. Falou o professor universitário Adel Sidarus, depois a escritora e poetisa Margarida Morgado e outros oradores, tendo um jovem de cerca de 12 anos de idade tido a intervenção mais emotiva.

O jovem pediu para falar e acercou-se do microfone dizendo que tinha tudo, tinha comida, tinha casa, andava a estudar, mas que se sentia triste porque o pai tinha sido obrigado a emigrar por não ter trabalho em Portugal. A forma elegante como o disse, mas ao mesmo tempo tão crua e tão real, despertaram lágrimas em quase toda a assistência e nele próprio.

Depois, bom…,  depois muitos elementos do Grupo Coral “Cantares de Évora” rodearam o microfone e com o mestre Joaquim Soares à frente cantaram algumas modas, uma delas com um poema muito bonito de Manuel da Fonseca (“Prá Frente”). Quase às 18,30 acercaram-se do “Grupo dos Cantares de Évora” elementos da Associação Cultural do Imaginário e vários músicos de Évora e todos em conjunto, ainda com várias centenas de pessoas na Praça, cantaram o “Grândola, Vila Morena”. A uma só voz. E repetiram a canção do Zeca dedicada ao povo alentejano e hoje, mais uma vez, símbolo da liberdade, da luta e da indignação, num fim de tarde que consistiu nisso mesmo: um sublinhar de que quando os cidadãos se juntam e organizam é possível ter esperança.

Carlos Júlio»

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