Los Arenalejos. Uma comunidade anarquista.

Posted on 5 de Abril de 2013

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Los Arenalejos

LOS ARENALEJOS é o nome de um dos mais antigos projectos na península ibérica da criação de uma comunidade alternativa libertária. Junto à serra de Ronda na Andaluzia (Málaga) e contemporâneos da Parreirinha em Silves, o fracasso em se constiturem como comunidade ou ecoaldeia ao fim de varios anos, não significou que essa experiencia tenha decorrido de forma anónima e sem expressão para o movimento anarquista. Sobre essa trajetória estão disponíveis algumas reflexões, como a tradução de um texto de Floreal Macarro aqui transcrita. O texto foi escrito por ocasião da Conferência Internacional sobre Ecologia Social e sua Perspectivas Políticas: o Municipalismo Libertário que teve lugar em Lisboa, nos dias 26, 27 e 28 de Agosto de 1998 e retirado do programa do encontro (aqui). Outros testemunhos  podem ser encontrados  por exemplo em 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7.

Em Los Arenalejos confluí a utopia libertária da vida em comunidade,  e o empenho em se cruzar com o movimento anarquista,  sendo o colectivo um dos principais difusores do pensamento e da Ecologia Social de Murray Bookchin (para isso criaram a associação ALAIDES, e editaram um boletim “La Hoja de la Ecología Social”).

Por tudo isso o que se segue é um importante complemento ao tema das Comunidades Alternativas que constitui o ultimo número da Alambique.

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Los Arenalejos

…/ A envolvente política-social

Esta zona foi uma zona de bandoleirismo, de actividades clandestinas e de movimentos sociais muito influenciados pelo anarquismo que encontrou, nestes povos da serra, profundas raízes no tradicional apoio mútuo. Mas há muito tempo que se sufocaram pelas armas fascistas e se enterraram no esquecimento os gritos dos camponeses andaluzes que conseguiriam, ainda que por puco tempo nos princípios da revolução de 36, as tão ansiadas “tierra y libertad”.

Esses gritos chegam-nos agora de terras longínquas, onde homens e mulheres vivem sem terra. Aqui, agora, à terra ninguém a reclama e a liberdade confunde-se com o dinheiro. Lá, do outro lado do charco, homens sem terra que por ela morrem, e aqui terras sem homens. Camponeses que abandonaram a dignidade e a luta mas também as terras duramente conseguidas, porque este imenso trabalho apenas tem como  paga a miséria. Tudo isso em troca de um subsídio agrícola, uma esmola do estado, ou para ir trabalhar para um patrão na costa turística. Apenas se mantêm as quintas ricas do vale.

O drama deste país, e em particular do povo andaluz, foi a passagem de uma sociedade arcaica de sofrimentos, miséria e despotismo, directamente para uma do gastar, usar e deitar fora em menos de vinte anos. Os capitalistas e políticos da transição manobraram com eficácia e rapidez, enquanto a oposição de esquerda ou se deixou comprar ou, como connosco, se perdeu em querelas internas sem capacidade de renovação. O povo está deslumbrado pelo resplendor do consumismo, mas ainda mantém a sua peculiar tradição oral. Nós, os libertários, arrastamos um glorioso passado, quase esquecido: o anarco-sindicalismo.

 Os primeiros passos

Tudo começou para nós em 1987, quando fartos de uma sociedade que só nos oferece, para a realização de cada um, o pisoteio dos demais ou o ser-se pisoteado. No horizonte, nenhuma perspectiva social alargada, pesem os esforços dos ecologistas, dos quais fazíamos parte. Fartos de uma perspectiva clara não conseguíamos mais do que criar uma nebulosa verde alternativa, em que cabia tudo e, entre outras coisas, também o retorno à terra, à natureza. Devido ao encontro destes dois fenómenos, e por coerência, demos esse passo. Limitados pela falta de meios económicos fomos, nove adultos e uma criança, em busca de um clima mais clemente, onde a auto-suficiência fosse mais fácil. Eis assim como nos mudámos de França para a Andaluzia onde, com a ajuda de amigos e familiares, comprámos quinze hectares de terras semi-abandonadas e um cortijo em ruínas. Mas a situação era dura, mesmo vindo quase todos de profissões manuais, e ao cabo de três meses dos nove adulto só restávamos cinco.

Basta dizer que não tínhamos máquinas, nem água corrente, nem luz, nem casa e que tínhamos que regar durante a noite.

O caminho faz-se a caminhar.

Raízes

A estas dificuldades materiais juntaram-se outras, de índole existencial. Veio-nos ao mundo uma menina, e com o primeiro menino já eram dois. Que lhes iríamos oferecer, neste enclave de quinze hectares? A esta pergunta outras nos respondiam, como um eco. De que maneira nos relacionaríamos para evitar as cizañas [ervas daninhas] no interior do grupo? Como iríamos encarar o nosso relacionamento com o resto da sociedade?

Tínhamos uma tremenda necessidade e vontade de coerência. Uma coerência no funcionamento das relações que queríamos igualitárias, de cada um e no seio do grupo, sensíveis e ecológicas em relação à terra, às plantas, aos animais. Por outro lado, e ainda que tivéssemos a sorte de ter boas relações com os vizinhos, esta coerência deixaria de o ser, de ficar limitada, fechada em nós mesmos, mesmo no meio da mais bela e prolixa natureza e com as mais satisfatórias das actividades. Faltava-nos encontrar a bisagra que nos permita abrir-nos ao resto do mundo e influenciá-lo antes que este nos aniquile com uma auto-estrada pelo meio da quinta, uma nuvem radioactiva ou que simplesmente nos afogássemos pelo isolamento.

Depois de um debate com fundos de práticas que durou três anos, encontramos o fio condutor dentro da tradição anarquista: Kropotkin, Reclus, os naturalistas sociais espanhóis, a revolução espanhola, Maio de 68, até chegarmos a Murray Bookchin e à ecologia social. Interessar-nos pela ecologia social recorda-nos que desde a Revista Blanca difundia Federico Urales aqueles princípios básicos do naturalismo social dos nossos pais e avós: não pode haver harmonia com a natureza se não a há entre as pessoas e a luta, mais do que pela igualdade, era pela liberdade de si próprio.

Nascia o nosso projecto ao dotar-se de raízes e de um corpo teórico que lhe dava a coerência desejada. As consequências não se fizeram esperar, e abrimo-nos procurando afinidades libertárias e ecologistas escrevendo os nossos propósitos na imprensa anarquista. Entretanto, as condições materiais iam melhorando com a construção de uma represa para água e a progressiva reabilitação da quinta, com a participação económica e prática de cada vez mais companheiros. Com isto, o projecto deixava de ser exclusivamente nosso e tomava um carácter social.

Relações

Este espaço, em função das suas possibilidades, estava pensado para umas trinta pessoas para que pudéssemos ter incidência social. A abertura em grande de Los Arenalejos a tal propósito teve consequências inesperadas para nós, tanto positiva como negativamente, das quais nos ressentimos ainda hoje em dia. Das muitas pessoas que passaram por aqui, poucas foram activas, responsáveis e criadoras. A tendência foi sempre a de procurar em Los Arenalejos um refúgio por parte de pessoas com problemas afectivos ou económicos, quando não ambos reunidos. No melhor dos casos, e à medida que íamos rectificando e precisando as nossas demandas, pessoas desejosas de adoptar um estilo de vida anarquista e ecologista no campo, mas sem qualquer compromisso político-social. Esta situação de passagem contínua, de conflitos internos agudizados pela falta de espaço, afectava-nos e a nossa hospitalidade via-se debilitada.

Sobretudo as crianças sentiam-se invadidas na sua intimidade, e foi-se desenvolvendo neles uma agressividade nada dissimulada para com os recém-chegados. Assustava nos que afinal ficassem com um sentimento de que a acção colectiva é algo desagradável, logo, não-desejável. Enfim, tudo ao contrário daquilo que pretendíamos. Dois anos depois do início do projecto, a tensão foi tão grande que dois dos que iniciáramos não aguentaram e foram-se embora. Aos que ficámos apresentou-se, então, a ideia de abandonar, mas sentíamos, pelos numerosos companheiros que continuavam a apoiar-nos, uma certa responsabilidade social.

Los-Arenalejos

A necessidade de investigar

Não seria a última vez que nos encontraríamos numa encruzilhada, mas para avançar necessitávamos saber porque éramos tão incapazes de criar uma comunidade autêntica, autogerida e com capacidade para resolver positivamente os seus conflitos. Além do mais, não éramos os únicos, havia muitos casos de fracasso, começando pelo próprio movimento libertário em geral. Para os imobilistas de uma ideologia anarquistas não havia problema. Abriam o breviário revolucionário na página correspondente e liam: toda a mudança revolucionária está impossibilitada até que a revolução se estenda ao mundo inteiro. De acordo. Mas e entretanto? Que fazíamos com as nossas vidas?

Estávamos convencidos que não tínhamos investigado os limites que nos impõe o sistema. Estávamos seguros de que havia vazios, zonas por explorar. Quem é que nos impede de nos irmos agrupando e criando manchas de autogestão? Aparentemente, os limites do sistema estavam em nós mesmos, e ainda por cima os reproduzíamos com os nossos filhos. Começamos a investigar para lá dos clássicos, Alice Miller e outros, mas sobretudo Henri Laborit e Murray Bookchin. Entretanto, conhecíamos companheiros da Associação Antipatriarcal, com quem prosseguimos o caminho juntos até à sua dissolução. Eles animaram-nos a prosseguir com o seu próprio material e enriquecer a nossa publicação La Hoja, uma revista que pretendíamos fosse trimestral e com a qual dávamos a conhecer os nossos fracassos e desventuras àqueles que seguiam com interesse o nosso projecto, evitando-nos ter que responder a todas as cartas que nos íam chegando. Sempre investigamos todos os aspectos da vida por necessidade.

A Ecologia Social no dia a dia

A situação das crianças preocupava-nos seriamente e foram eles que nos permitiram questionarmo-nos a nós próprios e começar a ver que os limites que nos impõe a sociedade actual não se cosntróiem apenas durante a fase educativa clássica, como o entendiam a maioria dos teóricos da pedagogia libertária, mas muito antes, como o assinala Bookchin: “o processo de socialização do ser humano de onde nasce a sociedade – seja sob a forma de famílias, tribos ou relações humanas mais complexas – tem a sua fonte nas relações parentais, em particular entre a mãe e o seu filho”. Já estávamos atentos ao fenómeno parto / nascimento/ amamentação. Iríamos sê-lo ainda mais.

Sem mitificar a maternidade, para nós não há qualquer dúvida que a mãe tem que viver essa fase da sua sexualidade sem frustrações, e que a criança desperte para a vida com os desejos saciados, com que se aperceba, primeiro emocionalmente e depois conceptualmente, do mundo tanto natural como social, não de uma maneira hostil, como sucede geralmente, ao ser normalizado o sofrimento. Para nós isso não é tudo, mas constitui um ponto de passagem importante para a constituição de uma sociedade libertária e ecológica. Acaso um “imprinting” constituído de carências e repressão do desejo não será a base de uma ordem social autoritária inconsciente? Pelo contrário, nós apostamos por uma maternidade apatriarcal, entranhável, situada dentro de um contínuo que dura da concepção até ao desmame. Deixaremos de lado o tema chave da infância, que tratamos ao longo do nosso boletim La Hoja, mas com este processo a que M. Bookchin chama biologia da socialização é uma das provas mais convincentes de que a nossa “primeira natureza”, ou seja a biológica, não é oposta à nossa “segunda natureza”, a cultural. Ao contrário, se a nossa cultura permite que se expresse a nossa natureza, esta vê-se, por sua vez, enriquecida pela primeira. E aquilo que sentes na carne, não o esquecerás. Sentimo-lo com este fenómeno como connosco, por exemplo com a autogestão da saúde, o ensino, a agricultura ecológica. Com as nossas experiências, demo-nos conta que Bookchin está certo em muitíssimos aspectos teóricos, neste caso e em outros como quando questiona os postulados de Freud. Mas o que mais nos seduziu é essa capacidade para analisar todos os aspectos da vida para os reunir adequadamente num todo coerente, dinâmico e evolutivo. Assim é como nos devolve, graças à dimensão histórica, uma confiança na natureza, na nossa natureza, na nossa capacidade social, na nossa criatividade. Consegue encantar-nos sem ter que recorrer à miragem da espiritualidade ou da Nova Era. Bookchin não renova nem moderniza o anarquismo, dá-lhe mais sentido e enriquece-o.

Relação com o movimento libertário

Com a ecologia social encontrávamos uma articulação e uma coerência ideológica tal como a procurávamos desde o princípio entre anarquismo e ecologia, pese a que não tínhamos acesso a muitas obras, não traduzidas para castelhano ou para francês. No primeiro número do nosso boletim, La Hoja (primavera de 92), começamos a falar de ecologia social, se bem que já citávamos Bookchin no primeiro artigo que publicamos na Lletra A, em maio de 1990.

Nós e o anarco-sindicalismo

Neste artigo já assinalávamos as nossas dúvidas em respeito ao anarcosindicalismo como eixo vertebral de uma actual transformação social. Para nós, respeitando o anarco-sindicalismo, deploramos a sua visão totalizadora, compreensível no século passado. Com efeito, o anarco-sindicalismo supõe uma predisposição prévia e multitudinária pelo sindicalismo. No século passado, a própria estrutura da sociedade gerava um proletariado bastante homogéneo, o que agudizava a chamada consciência de classe. Todas as profissões confundidas viviam, mais ou menos, as mesmas horrendas situações económicas e sociais. Povo e proletariado confundiam-se. Isto ainda acontece em muitos países do terceiro mundo, e sem querer aprofundar este tema continuarão as lutas de classe, sobretudo por parte dos sectores mais pobres, donde podemos pensa-lo, o sindicato revelar-se-á como uma ferramenta necessária. Mas nas nossas sociedades o sindicato já não constitui, por muita ideologia e convencimento que tenhamos, um denominador comum para o povo. Que tenho eu a ver e a compartilhar, eu camponês, a nível de inquietações económicas, com um funcionário dos serviços agrários, que vive às minhas custas? Eu trabalho pelo menos dez horas por dia, a suar, e ele trabalha cinco, e com ar condicionado. Eu tenho rendimentos precários, ele cobra um soldo três vezes superior ao meu e com segurança de emprego para toda a vida. O sindicato albergaria interesses contraditórios, ainda que todos nos chamemos proletários. O corporativismo está totalmente institucionalizado. A ele se juntam as profissões que se alimentam das desgraças humanas e ambientais. No princípio do século, a proporção de operários na C.N.T. era arrasadora. Agora, seja na C.N.T. seja na C.G.T., os funcionários e os estudantes constituem a grande maioria. Uma quer-se muito radical, mas com um discurso do princípio do século, a outra afoga-se em subsídios, e dá lugar até a funcionários de duvidosa utilidade pública. Na realidade, são as duas caras de uma mesma moeda: a obstinação em querer perpetuar o anarcosindicalismo como eixo do movimento revolucionário. Para nós, no entanto, tratar-se-ia não de o repudiar mas sim de estudar como situá-lo adequadamente dentro da desafiadora estrutura que o capitalismo e a democracia parlamentar têm vindo a complexificar e a afinar durante esta última metade do século. Tudo sem renunciar à sua experiência e à sua essência revolucionária. Pode ser que a este respeito o municipalismo libertário traga alguns elementos de resposta.

O nosso propósito

Por outra parte, nunca pensámos seriamente que as colectividades rurais, por si só, podiam criar um movimento social amplo, salvo talvez quando criámos a efémera F.A.C.C. [Federação Anarquista das Colectividades do Campo], em 1992, com colectivos no geral já inexistentes hoje em dia. A partir da nossa especificidade camponesa e colectivista, o nosso propósito sempre tem sido o de trabalhar em estreita colaboração com os movimentos sociais libertários sobretudo, mas também ecologistas. Salvo o anarco-sindicalismo, não havia nem existe, na actualidade, nenhuma organização de tuvismos de índole libertária aqui no estado espanhol, e sempre deplorámos o activismo panfletário pouco construtivo da grande maioria dos grupos e ateneus libertários. Para nós tratava-se, graças às nossas experiências, de trazer novos elementos de reflexão para enriquecer o movimento libertário, dar-lhe vida com experiências novas e actuais. Em troca receberíamos as críticas e a energia dos companheiros que, por sua vez, nos trariam o fruto de experiências distintas. Paralelamente, iríamos construindo um movimento autogestionário estreitamente vinculado à ecologia social. Não podemos passar sem esse duplo movimento para progredir, a hipótese de trabalho fundada sobre factos conhecidos e frescos que desembocam sobre descobrimentos novos, que por sua vez permitirão a criação de novas hipóteses. Fomos tentando durante muito tempo com a C.N.T. (a C.G.T. estava fundida na época), único movimento com um certo enraízamento social, pese embora as nossa críticas em relação ao anarco-sindicalismo. Por parte da C.G.T. (então C.N.T.) tivemos um apoio verbal amistoso que nunca chegou a coalhar. Num primeiro tempo tivemos um apoio fabuloso por parte da C.N.T. (filiados e sindicatos). Conseguimos, graças a uma campanha, o tractor de que necessitávamos. Companheiros do sindicato vieram ajudar-nos, no que, frequentemente, podíamos vislumbrar com entusiasmo como poderia ser uma sociedade libertária. Então, quisemos dar um passo mais, dispostos a integrar todas as nossas terras e bens numa fundação para a Ecologia Social, irmanada com a F.A.L. (Fundação Anselmo Lorenzo), fundação da C.N.T., por pouco que esta utilize uma pequena parte do património histórico para incrementar as estruturas da colectividade. A falta de adesão maioritária à nossa proposta num pleno regional da Andaluzia fez-nos retroceder, ainda que continuemos a colaborar.

As nossas actividades sociais Perante estes factos e aconselhados por alguns militantes da C.N.T., velhos companheiros, decidimos abrir o nosso próprio caminho e criar uma “fundação para a investigação e desenvolvimento da ecologia social”, independente de qualquer organização mas dispostos a colaborar com outras entidades. Entretanto, continuavamos empenhados em dar a conhecer as nossas experiências e, por extensão, tudo o que sabíamos sobre ecologia social, graças a La Hoja, participando em discussões, colóquios, feiras, etc. No primeiro ano criamos, numa rádio local, uma emissão semanal sobre ecologia, e logo participámos em vários programas televisivos.

Actualmente estamos a preparar, com uns amigos profissionais, um vídeo sobre Los Arenalejos e a sua projecção, a ecologia social, para distribuir nos canais de televisão. Não deixamos também de incitar e ajudar as editoras Virus e Madre Tierra para que publiquem os muitos livros desconhecidos de Bookchin. Com Madre Tierra publicámos um ensaio deste autor, Historia , Civilización y Progreso, e estamos prestes a editar La Ecologia de la Libertad.

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A nível local, pensámos, desde o princípio, desenvolver actividades com as povoações vizinhas. Tentámos uma criação de frangos, autogerida com alguns vizinhos amigos, e falhámos. Depois pensámos criar um ateneu, mas a nossa debilidade impediu-nos de ter uma acção duradoura neste terreno. Noutro nível, temos insistido bastante na criação de projectos autogestionários com projecção social, sobretudo na Europa e até na América.

Quanto ao municipalismo libertário, pensamos que este poderia despertar nos povos uma grande expectativa, sendo este o lugar de encontro mais apropriado para todas as forças sociais e para criar um movimento político popular que as englobe. Temos neste país muitos exemplos históricos a este respeito, e outros mais recentes onde pode inspirar-se o municipalismo libertário. Temo-los no poderoso movimento de moradores nos últimos anos do franquismo, nas candidaturas assembleárias nas primeiras, depois da ditadura, eleições municipais de 1979, na desconexa e breve reação ao golpe de estado do 23-F, e muitas mais experiências que pela sua feição local são desconhecidas fora delas; veja-se o interessante caso da povoação andaluza de jornaleiros, Marinaleda, pelo menos na sua fase inicial.

No nosso parecer o risco situa-se no começar pelo discurso político na sua fase inicial eleitoralista. O risco é o de irmos construindo uma estrutura política vazia, ou seja, sem raízes sociais e sem práticas autogestionárias que a habitem e que a suportem.

As nossas propostas

Em relação à acção social ou política, todas as pessoas implicadas se queixam de falta de tempo. No nossos entender, existem duas formas de poder libertar esse tempo. Actualmente, só os funcionários privilegiados que dedicam algumas horas por dia à sua profissão, ou os desempregados bem pagos ou sem compromissos familiares, poderiam dedicar tempo a essas actividades. Também poderíamos, com dinheiro, passar a profissionais, com ajuda de subvenções, o que não nos parece desejável. Optámos por encontrar tempo sem a ajuda do estado, graças a uma actividade conjunta e autogestionária que nos permita trabalhar menos. Assim é, para além da indispensável alegria na procura do trabalho colectivo, como libertamos tempo para dedicar a criar mais movimento social e político, sem por isso fazer parte de uma elite privilegiada. Além disso, a nossa conduta, ao ser coerente com as nossas pretensões, dá um peso considerável aos nossos propósitos.

A nossa experiência, na verdade, não abunda neste sentido, pois trabalhamos demasiado. Por isso, e pelo exposto anteriormente sobre as tensões e os conflitos internos, decidimos mudar em Los Arenalejos, adoptando as seguintes medidas:

1. Ser mais estrictos quanto à ideologia política de quem quiser integrar o colectivo.

2. Ser, pelo contrário, mais tolerantes quanto ao social e aos costumes de cada um.

Para isso, adoptámos o seguinte: a) os candidatos à integração deverão demonstrar a sua capacidade de autonomia económica durante um ano e, se possível, propor uma actividade para tal efeito; b) quem integrar o colectivo terá que erguer, com a ajuda do colectivo, a sua própria habitação, de maneira a irmos criando uma aldeia colectivizada onde cada um tenha o seu próprio espaço e possa utilizar as estruturas colectivas; c) a economia continuará a ser colectiva, reunindo todas as fontes de investimento. A repartição entre os componentes será realizada uma vez definido colectivamente o orçamento para os gastos de funcionamento das partes comuns e das actividades lúdicas, culturais e socio-políticas.

3. O aspecto legal será, a partir de Outubro, o de uma associação sem fins lucrativos, ligada a uma sociedade civil. [associação ALAIDES]

4. Sendo os fins da associação a investigação e o desenvolvimento da ecologia social, pela prática da autogestão, do trabalho manual e intelectual, dotar-nos-emos dos meios tecnológicos e estruturais necessários para realizar as correspondentes actividades, em colaboração e de forma complementar com entidades citadinas, como pequenos cursos, campos de verão para crianças, seminários, revistas, edição de livros, folhetos e vídeos.

Los Arenalejos está à disposição da ecologia social, é uma ferramenta. Agora, dependerá de nós e de como responderem os companheiros e como, juntos, seremos capazes de a utilizar.

Los Arenalejos, uma terra para viver e um projecto por fecundar.»

[Lisboa, 1998]

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