Utopias colectivas

Posted on 14 de Abril de 2013

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No terceiro número d’Alambique (2011), partimos do livro A Memória e o Fogo  “impelidos em resgatar a memória insubmissa do espírito popular das lutas do início do século XX à energia subversiva do 25 de Abril”. Dizia-nos o seu autor Jorge Valadas:

“na sociedade portuguesa, o 25 de Abril continua a ser reduzido aos seus aspectos politiqueiros e institucionais. Todas as virtualidades de insurreição social destes anos, durante os quais os trabalhadores ganharam poder sobre as suas vidas e procuraram caminhos para a emancipação colectiva, tudo isso desapareceu da memória social. O que poderia ser um mito é esquecimento. Quando a linguagem de revolta integrar a expressão “É preciso um novo 25 Abril” – tal como em França se integrou “É preciso um novo Maio 68” – será sinal que este acontecimento histórico terá passado para o imaginário social dos explorados. A derrota foi de tal maneira arrasadora que apagou da memória todos os traços desta experiência. Cresça a conflituosidade social e logo se manifestará mais interesse pelas experiências do passado, logo se procurarão referências, mais ou menos míticas, para ajudar a agir e a pensar o futuro. Entramos num período de crise do sistema que vai modificar os modos de luta e de pensamento. Que abrirá novas possibilidades. (…)

Exprimir a necessidade da utopia colectiva como elemento constituinte de uma revolta social é um mínimo em toda actividade crítica, insubordinada à ordem “natural” das coisas. A exigência da memória deve partir da revalorização da história dos vencidos. Evitando tanto quanto possível as mistificações e os triunfalismos. Também, para analisar as causas das carências actuais de energia e de iniciativa colectiva é indispensável partir da realidade, da caracterização do momento histórico. Há que abordar a sociedade portuguesa no quadro global do capitalismo moderno, no seu movimento contraditório. O que é hoje esta sociedade, e o que já não é? (…)

O mundo rural de hoje é um espaço mercantil, totalmente capitalista. A indústria da agricultura tem exigências na forma de propriedade, da dimensão e da irrigação presentes no campo alentejano. A produção agrícola industrial obedece às leis do capitalismo, concentração, substituição da força de trabalho pelas máquinas, com o consequente aumento do desemprego de massa. Assim vai, para aí vai, o Alentejo…

Se abordarmos esta evolução numa perspectiva histórica, parece evidente que ela se inscreve na continuidade da Reforma Agrária comunista do fim dos anos 70. O movimento social nos campos, logo após o 25 de Abril, tinha potencialidades diversas e contraditórias. A tendência dominante carregava as utopias sociais do passado e a raiva das lutas anti-latifundiarias do período fascista, reivindicava confusamente uma emancipação social, uma outra maneira de viver. Digamos, para simplificar, que estas aspirações se encontraram reunidas no que se poderia chamar o “modelo Torre Bela” [ocupação no Ribatejo em Abril de 1975]. Esta tendência foi vencida pelo “modelo burocrático” da Reforma Agrária, defendido pelo aparelho político e técnico do PCP. O qual reivindicava os valores da lógica produtivista e da eficácia, conformes às exigências de uma economia nacional estatizada. Esta vitória não foi fácil! Pode-se mesmo dizer que foi uma vitória incompleta. Vários estudos mostram que o “modelo burocrático” das Unidades Colectivas de Produção (UCP) encontrou, no campo, a forte resistência da base do PCP. Os assalariados agrícolas reivindicavam um trabalho, melhor, um salário, para poderem viver e não o contrário. Eles resistiram à lógica produtivista de forma surda e subterrânea. A dificuldade de introduzir os critérios de produtividade nas UCP e a necessidade política de empregar (e pagar) um grande número de trabalhadores, foram a derrota da Reforma Agrária do PCP.”

E a propósito da memória de Abril, e das experiência de colectivização das terras, o Colectivo Libertário de Évora contribuiu recentemente  disponibilizando um texto anarquista produzido “de dentro” da reforma agrária em Portugal (A SEMENTEIRA nº1 de 1977), um raro testemunho escrito à data dos acontecimentos por um “militante libertário que estava, nesse momento, a trabalhar numa cooperativa do distrito de Santarém, mas com muitos contactos com cooperativas do Alentejo”.

Esse ensejo da memória está também presente no recente texto “Comunal de Árgea: uma cooperativa do pós-25 de Abril inspirada no Maio françês de 1968”, desta feita no blog, também ele de Évora, A Cinco Tons.

(imagem: ilustração de Design Ruim, Alambique #3)

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