O Nuclear em Beja

Posted on 19 de Abril de 2013

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Jornadas da Paz_Contra a nuclearização da BA 11_8

Nos anos 80, em miúdo recordo-me como saí de uma sala de cinema sentindo o peso da catástrofe iminente da guerra nuclear. “O Dia Seguinte” de 1983 inquietava-nos pelo medo do botão vermelho que num ápice acabava com a vida na terra. A guerra fria arrepiava ainda a espinha da humanidade, impondo a divisão entre blocos capitalistas e comunistas, entre os bons e os maus consoante corriam os ventos ou as latitudes.

Hoje a ameaça de um conflito nuclear está de novo na ordem do dia. É certo que amiúde serve de argumentação para reequilibrar unilateralmente pelas forças das armas os interesses da finança, e é certo como o medo prossegue como fonte inesgotável para nomear, com normalidade nessa mesma equação, a democracia. Hoje a ameaça eterniza-se entre as Coreias e cada jogada nesse tabuleiro da geoestratégia política mundial, ecoa e recorda-nos o “Dia Seguinte”.

Não sei se sobram ainda por essas estradas alentejanas as placas de boas vindas ao entrar numa Zona Livre de Armas Nucleares. Pouca memória ficou para quem cresce hoje a jogar às armas nas playstations, desse movimento então presente nas autarquias a Sul e que era conduzido no sempre e deliberadamente dúbio equilíbrio comunista das forças militares em causa. E eis que descobri no álbum fotográfico dos anos 80 deste jornal os testemunhos da “Jornadas da Paz Contra a nuclearização da BA 11”. As pessoas na rua contra as armas nucleares; contra a força de intervenção rápida americana em Beja, aliada dos alemães na NATO, aí instalados para responder à ameaça dos Mig do Pacto de Varsóvia…

Por essa altura movia-me a descoberta de um mundo livre e de brincadeiras, como certo seria com as crianças que encabeçavam essa manifestação nas ruas de Beja; mas hoje move-me a pergunta do porquê não haver nem memória, nem vontade por um mundo livre. Se à distância histórica, pudéssemos pôr de lado o jogo de forças a que não era alheia muitas dessas posições contra o nuclear, é tão urgente ontem como hoje aquilo que nos deveria levar a desfilar em direção à maior base aérea militar da Europa, a Base Aérea de Beja. Para antes de sequer ser anunciada qualquer inauguração, dizer que não queremos potências nucleares a sobrevoar os nossos horizontes. Pois na ânsia de dar um sentido ao inexistente aeroporto, anuncia-se a instalação de uma escola de pilotos Sul-Coreana, que para além de montra comercial do maior produtor de armamento mundial (a americana Lockeed Martin), serviria como base segura às relações ocidentais de quem hoje alimenta em crescendo uma “guerra fria” mano a mano com a potência nuclear da Coreia do Norte.

Chernobil – e ontem mesmo  Fukushima – vieram a mostrar que a queda do Muro não bastava para afastar o espectro da morte, talvez apenas demonstrando a demagogia oca dos municípios livres de armas nucleares. O armamento nuclear é apenas a jóia da coroa, da lógica industrial insaciável, de um sistemático modelo de controlo totalitário das populações assente em exércitos e na indústria militar que ora está na Coreia, ora está em Beja. A oposição a essa lógica, aqui rebaptizada de desenvolvimento pelo cluster aeronáutico para o Alentejo, começa por decidir como nos situamos perante a mesma. Aceitando ou assobiando para o lado, sem juntar as peças da engrenagem militar que nos vendem como progresso, ou recusando a mesma. Para que o Dia Seguinte não seja um ponto de não retorno.

Filipe Nunes

Publicado hoje no Diário do Alentejo

P.S. [à publicação da crónica de opinião] Foi ontem anunciado o cancelamento por parte da Coreia do Sul do seu projecto de Beja. Satisfeito por esse facto, desactualizando o acima expresso, o tom do texto não desaparece porém. Seja na necessária  falta de uma indignação popular anti-militarista, contra  a economia do armamento. Seja  contra a mencionada lógica industrial insaciável que o nuclear expressa na sua totalidade.

Fotos Arquivo Diário do Alentejo

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