A Comuna Clarão. Experiências libertárias em Albarraque

Posted on 22 de Abril de 2013

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Jorge Campelo

  “ – A Comuna Luz acabou – mas fundei ao pé de Sintra, em Albarraque, a Comuna Clarão. Logo que sai da cadeia, eu e os meus amigos não pensamos noutra coisa. Já lá temos um prédio e terras. Vamos dedicar-nos à horticultura, à floriculturta, à pomologia. O nosso objectivo é tolstoinano. Salvaremos as crianças das ruas: faremos delas homens e mulheres honrados”.

Quem nos fala é António Gonçalves Correia – citado por Raul Brandão (1867-1930) na sua obra Os Operários – dando conta do ânimo que o leva, após o fim forçado da Comuna da Luz (Odemira) e das prisões que se lhe seguiram por motivo das agitações grevistas de 1918 em Vale de Santiago, a um novo projeto de uma comuna anarquista em 1927. Acrescentou ainda o anarquista alentejano a Raul Brandão: “Fizemos um prédio de novo – com 16 compartimentos. O grupo inicial é de 3 criaturas (…) Queremos ligar a comuna a Lisboa pelo telefone. Sonhamos com um teatro infantil. Sonhamos com o belo”.

As 3 criaturas, são para lá de si mesmo, outros 2 companheiros. Carlos Nobre, barbeiro e comerciante, vinha do Porto onde fora já referenciado desde a sua prisão em 1904 por “abuso de liberdade de imprensa”, ao publicar o nº único de “O Clarão”,  mas julgado e absolvido em Março de 1905, prosseguirá depois como director de “O Clarão” entre 1909 a 1913. Jorge Campelo (1882-1966) é o restante companheiro (fotos acima) – que ao contrário do anterior, a quem as memórias do anarquista Edgar Rodrigues referem ter tido “viragem autoritária” – prosseguirá a sua vida em Albarraque, e aí continuará a promover as praticas comunitárias iniciadas com a Comuna Clarão. Em 1911 viera do Rio de Janeiro para Lisboa e em 1913 aparece activo no Carregado (Cf. “A Comuna”), vindo a fixar-se  por volta de 1925 na zona de Lisboa. É a figura central em torno das experiências libertárias de Albarraque.

São estes os 3 fundadores da “Comuna Clarão” – a “Comuna de Albarraque” (Sintra) – após o repto de Gonçalves Correia em 1927 (concorrendo este ultimo e Jorge Campelo para a compra dos terrenos). Porém, tratou-se nessa primeira etapa, de uma experiência libertária de vida em comum muito breve, pois logo em 1928 a Comuna desagregou-se por desentendimentos entre os seus participantes. Edgar Rodrigues aponta mesmo o conflito estabelecido entre Gonçalves Correia e Carlos Nobre por entre graves problemas financeiros, e que levou mesmo a questão aos tribunais após o fracasso da resolução mediada pelo grupo anarquista O Semeador e a CGT.

Fruto desse triste desenlace, o terreno é vendido em lotes por Jorge Campelo que doou então lotes de terreno às Juventudes Sindicalistas, à Voz do Operário, Juventudes Comunistas e ao Orfanato de S. Isabel. Outro lote vai parar ao companheiro Mário de Oliveira. Mais tarde, em terrenos outrora pertencentes à Comuna Clarão, o escritor José Gomes Ferreira virá a construir a sua casa de Albarraque.

A permanência destes anarquistas leva logo em 1930 a Jorge Campelo a novos projectos. Procura junto com o educador Mário de Oliveira levar a cabo um projeto da “Escola-Nova” em Albarraque: “que promova uma instrução ampla, integral e livre, mais perfeita e solidária que venha a integrar o homem no seu lugar na vida”. E é nesse contexto que Lígia de Oliveira (1917-1999), que com 16 anos em 1933 ingressou nas Juventudes Libertárias nos dá conta, em testemunho vídeo de 1988 a Rui Simões, como:

…/ Em Albarraque estava o camarada Campelo que nos cedeu um terreno e aí fizemos uma comuna: Comuna de Albarraque, que era na Póvoa da Raposa, era um local bonito, mas cheio de carrasco e pedra. E nós conseguimos desbravar aquele terreno, conseguimos abrir um caminho para a estrada principal, conseguimos construir uma pequena casa, tínhamos uma horta e ali nos reunimos para ler os clássicos anarquistas, discutir e discutir também todos os problemas referentes ao esperanto, ao naturismo e assim… /…

BNP_N61_CX40049eGrupo de jovens familiares dos militantes libertários (1930 em Albarraque)

António Almeida e Natália Alves, publicam em 1990 na revista A IDEIA (nº54) um artigo sobre a Comuna de Albarraque.  Alberto Franco (2000) sumaria as  conclusões desses autores, que apontam a Comuna como “um espaço social alternativo no qual se estruturam práticas sociais atípicas, tendo por referência os ideiais acratas, e como um espaço de dissidência, de alternativa criadora e de resistência política”. A segunda vida da Comuna de Albarraque impulsionada por Jorge Campelo, é dinamizada – citando Alberto Franco o artigo d’A IDEIA: “com base nos princípios do internacionalismo, do esperantismo e do naturismo, instituir modelos de relacionamento que sejam catalisadores da libertação humana. (…) Ali, “tudo é permitido” em comparação com a vida rotineira da urbe. (…) De facto lá se pratica, por exemplo, o naturismo que é à época tido como uma afronta aos bons costumes da tradicionalista sociedade lisboeta”.

A comuna de Albarraque – em moldes claramente distintos e mais como uma comunidade familiar e de acolhimento, prosseguiu assim pelos anos 30 e em diante como um foco de resistência à ditadura, esconderijo (republicanos espanhois, judeus perseguidos) e lugar  de exercícios de treino armado de jovens anarquistas.

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Fotografia em Família (Jorge Campelo)

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Grupo de Jovens Esperantistas (1940 em Albarraque)

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Grupo de Anarquistas em Albarraque (Julho de 1947)

Datam desta altura, hoje dadas a conhecer pelo Projecto MOSCA, as  fotos de Jorge Campelo e família por volta de 1940 . Pela mesma altura é a foto de um Grupo de Jovens Esperantistas a que pertencia Lígia de Oliveira (tal como Júlio Santana, barbeiro), empunhando a respetiva bandeira, nos terrenos da “comuna de Albarraque”. Uma década antes data a foto de grupo de que fazia parte Lígia de Oliveira, de jovens, adolescentes e crianças familiares dos militantes libertários e afins com residências secundárias nos terrenos da “comuna de Albarraque”. Alguns  anos depois o local permanecia como ponto de encontro, como atesta a foto de um grupo de jovens das Juventudes Libertárias e simpatizantes em Julho de 1947  vindo a desaparecer em torno desses meados do séc. XX.

Texto a  partir do portal do Sistema de Informação MOSCA (Aqui)

FRANCO, Alberto (2000): “A revolução é a minha namorada – Memórias de António Gonçalves Correia, anarquista alentejano”, ed. Câmara Municipal de Castro Verde

BRANDÃO, Raul – «Os Operários» – Fixação do texto, introdução e notas por Túlio Ramires Ferro, Lisboa, Biblioteca Nacional, Autores dos Séculos XIX e XX, 1984

RODRIGUES, Edgar (1981) “ A Resistência Anarco Sindicalista á Ditadura – Portugal 1922-1939”, Editora Sementeira.

ALMEIDA, António; ALVES, Natália (1990) in Revista A Ideia, nº54, Maio de 1990

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