1º de Maio: ontem e hoje

Posted on 29 de Abril de 2013

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…/ demonstraram em palavras cheias de rasgos e indignação, o que era o 1º de Maio, fazendo ver que esse dia pelos operários festejado com músicas e jantaradas, é a maior afronta que todos poderemos fazer a esses nossos tão gloriosos antepassados; victimas como nós, de uma casta que á força nos quer canibais /….

Vale de Santiago, Odemira (1916)

…./ Pelo quarto ano consecutivo lançamos uma chamada a uma mobilização anti-capitalista e anti-autoritária no 1º de Maio. As razões pelas quais convocámos em 2010 são ainda válidas hoje: a necessidade que temos de recuperar este dia como um dia de combate, de homenagem aos caídos nesta Luta Social, de revolta contra a ditadura financeira, a exploração humana, a destruição da Terra e dos territórios; e contra a existência do Estado , qualquer que seja o seu regime, instrumento que será sempre o garante dos privilégios das desigualdades e injustiças, e nunca um “protector dos mais fracos e garante dos direitos iguais” como sonham os utópicos do “Estado Social”. /….

Setúbal (2013)

 

«Há pouco mais dum ano que nesta pequena localidade se organizou a Secção dos Trabalhadores Rurais e já ela condignamente, por duas vezes comemorou a data célebre e de revolta para o operariado mundial, o 1º de Maio.

Este ano então, chegou ela ao auge do delírio. Sem fungagás, foguêtes, comesanas ou decilitradas, mas sim com duas sessões enérgicas. Uma pelas 16 e outra ás 21 horas.

Em ambas as sessões tivemos o prazer, a satisfação, de nos encontrarmos em fraternal convívio com mais de 200 camaradas. Homens, mulheres e creanças, que, como um só coração, um só pensar, ali estavam todos com o mesmo desejo, o mesmo fim, o de secundarem e se manifestarem solidários com esses infelizes da tragédia de Chicago em 1 de Maio de 1886.

De Odemira vieram os camaradas Manuel da Silva Campos, Josué Romão, José Ludovino e outros e o camarada Luís Godinho, redactor principal da “Questão Social ”.

Na sessão da tarde, todos estes camaradas e Joaq. Manuel aqui residente demonstraram em palavras cheias de rasgos e indignação, o que era o 1º de Maio, fazendo ver que esse dia pelos operários festejado com músicas e jantaradas, é a maior afronta que todos poderemos fazer a esses nossos tão gloriosos antepassados; victimas como nós, de uma casta que á força nos quer canibais.

Passagens grandiosas, de sincero amor por uma humanidade livre, houveram da parte de todos os oradores, arrancando a toda a assistência, veementes protestos de indignação.

No final foi aprovado uma enérgica moção, dirigida aos nossos dirigentes, em que se reclamava a liberdade de todos os nossos camaradas presos por Questões Sociais e a reabertura de todas as agremiações operárias, arbitrariamente encerradas.

Na sessão da noite fizeram o uso da palavra os camaradas Manuel da Silva Campos e Luís Godinho, sendo o tema do primeiro: Os operários e a guerra Europeia; e o segundo: A emancipação da mulher.

Tanto um como o outro, foram por vezes delirantemente ovacionados.

E assim terminou esta inolvidável manifestação de solidariedade para com a jornada de 8 horas, e saudade para com os jámais esquecidos mártires de Chicago.

Todos estes nossos camaradas retiraram no dia 2, tendo uma despedida afectuosa.

Val de Santiago 4-5-916 »

Carta publicada no jornal anarquista A QUESTÃO SOCIAL de 18/06/1916 (cremos ser esta a última edição do mesmo: nº20). O jornal fundado por Gonçalves Correia em Janeiro de 1916, e que teve desde cedo Luiz Godinho no grupo editorial, assumindo este, desde Abril desse ano, a propriedade e a redacção principal.martires de chicago

Vale de Santiago era desde o início da década um ponto fulcral na luta dos trabalhadores rurais e do anarco-sindicalismo. Em Odemira fundara-se em 1912 a Associação dos Trabalhadores  Rurais, por parte de alguns dos oradores acima citados vindos dessa vila. Parte deles eram também do Grupo Comunista Libertário de Odemira, 1913/25 [FARP – UAP], e que levavam a cabo fortes campanhas de agitação e propaganda. A Associação do Vale de Santiago vivia tempos agitados. Um ano antes deste 1º Maio aqui relatado fora aí igualmente criado o “Grupo Anarquista-Comunista”. E no Verão de 1915 “dão-se ali violentos choques de que resultam várias prisões”, razão pelo que era reclamada “a liberdade de todos os nossos camaradas presos por Questões Sociais”.

É nesse ambiente de constante luta que vem a nascer em cerros vizinhos à aldeia do Vale, a Comuna da Luz, poucos meses depois desta energética sessão do 1º de Maio. Ao longo de 1917 e até Novembro de 1918 essa inteira camaradagem permanece entre os anarquistas da Comuna e a população do Vale, reunidos na Associação e partilhando ideia, conversas e cantigas…

Com os acontecimentos insurreccionais de 1918, por ocasião da Greve Geral, Manuel da Silva Campos, Josué Romão e José Ludovino farão parte de um vasto conjunto de deportados para África. Na noite anterior ao 1º de Maio de 1919, o regedor do Vale de Santiago prolongando o “terror sidonista” dos agrários, junto com grupos armados desses e a cavalaria – como relatava o jornal A Batalha – assalta várias casas do Vale “agredindo barbaramente trabalhadores, arrastando-os para fora das suas casas”.

Texto a  partir de Francisco Canais Rocha e Maria Rosalina Labaredas (1982) -“Os trabalhadores Rurais do Alentejo e o Sidonismo. Ocupação de Terras no Vale de Santiago”; e do portal do Sistema de Informação MOSCA / Daqui retirada a ilustração d’ A Comuna  (Aqui).

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