Mãe Terra

Posted on 24 de Maio de 2013

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Dia da espiga

A recente reportagem acerca das Maias, a grande festa da Primavera em Beja relatada pelo Diário do Alentejo, veio demonstrar como celebrar tradições milenares e telúricas é cada vez mais uma prática necessária à nossa atualidade. Pelo seu significado, e pela espiritualidade que invoca, são chamadas da natureza tão essenciais ao individuo como às comunidades. A celebração destes ritos da terra (como antes expresso pelo dia da espiga) junta os homens, inevitavelmente mediados pela feminilidade, com a natureza e o desejo de uma boa e harmoniosa fertilidade dos campos. Nestes como noutros casos, a agricultura pede a graça à mercê da natureza que reconhece ser a sua mãe e madrasta, e fá-lo popularmente pese a constante domesticação da religião que se reveste ou sobre eles possa aparentemente imperar.

As tradições populares primaveris, como será esse ancestral paganismo que os festejos dos Santos não escondem pisando no baile o aroma das ervas da ribeira, respeitam elas também uma ruralidade, que não é por ser tradicional que tem de ser parada no tempo. Agradecer a relação e as dádivas da terra pode soar básico e simples. Mas por isso mesmo é importante e essencial. Não sequer reconhecer isso, em nome da complexa cadeia agro-industrial e maquinal imediatez do nosso consumo diário, é que é algo sim, profundamente ignorante e sem sentido: automático, e logo não natural.

Estas celebrações não só nos (re)aproximam da terra, como por ela estamos no campo e interagirmos como vizinhos e amigos. Por boa parte desses motivos ir hoje para o campo é uma necessidade sentida por cada vez mais pessoas. Quer na cidade, imersos pela urgência da luta pela natureza que escasseia, quer no campo neo-ruralizado e marcado por esses referentes urbanos, reemerge a Mãe Terra.

Mas nesse regresso à terra, essa entidade sacralizada e espiritual, surge em grande parte como uma opção esvaziada do seu lugar e tradições (e quantas vezes de sentido). Dependente do silêncio, da luz e do ar puro, a primazia do regresso à terra surge centrada somente no desenvolvimento espiritual e pessoal, esquecendo ou ignorando o que, e quem, já ali estava antes. Hoje, esquecidas as heranças milenares expressas nas festividades e lugares de encontro ancestrais, nessa recuperação espiritual com a terra, abundam antes as mais diversas referências espirituais, filosóficas e imaginárias. Uma amálgama eco-bio-zen-e-por-aí-diante, que das religiosidades orientais, às comunidades índias, desemboca regra geral numa New Age milenarista. Uma ânsia de espiritualidade que resulta muitas vezes na aceitação fácil, superficial e negligente de entidades abstratas e explicações irracionais do mundo, da natureza e do universo, chegando a tocar o absurdo e sobretudo a encher os bolsos de um lucrativo mercado espiritual, que são o lastro das religiões.

Celebrar por isso essas tradições milenares e telúricas, pode resultar num exercício necessário à nossa atualidade, precisamente porque reaproxima verdadeiramente as pessoas do lugar. E para quem vem para o campo na procura de uma Mãe Terra e de um lugar de cura, uma oportunidade de se aproximar do lugar, também enquanto espaço partilhado. Pois um lugar, mais do que um pedaço de terra é um pedaço de gente que o celebra, vive, cultiva, nele nasce, dele sai, dele deriva e a ele retorna.

O respeito ao lugar mede-se nesse sentido precisamente pelo respeito à natureza do lugar, tal como é pelo modo em que nela estabelecemos a mais milenar das nossas relações com a terra que é a agricultura. Que simplificando: pouco natural tem sido e demasiado mecânico tem prosseguido. Por isso a importância dessa ruralidade calendarizada nas Maias e em outras manifestações populares ritmadas pelas estações e as colheitas. Ocasião de cada um renovar os laços pessoais à natureza, como o renovar dos laços comunitários. Os quais serão mais fortes, quanto maior for a nossa relação individual e coletiva com a terra.

Filipe Nunes

Crónica de opinião, publicada hoje no Diário do Alentejo

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