Incêndios

Posted on 20 de Julho de 2013

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Chegada a época dos incêndios florestais, volto a esse recorrente tema de verão para demarcar-me da linguagem oficial que se revestem as habituais discussões e notícias, pretendendo argumentar como essa abordagem é reveladora não apenas das causas do problema, como um obstáculo às possíveis soluções. Em como os incêndios se tratam afinal das chamas vivas de um contínuo processo de degradação tanto a nível social como ambiental e, como tal, da nossa desagregação colectiva com o território.

A abordagem ao tema dos fogos é toda ela expressa numa linguagem e pressupostos técnicos e militares. A resposta oficial, quanto maior é o problema ano após ano, assenta cada vez mais em como articular a cadeia e as hierarquias de comando, na sua maior parte resultando numa mera disputa de galardões, competições que se alargam na altura de equipar lucrativamente a industria de combate de fogos, como acontece com os meios aéreos privados. A ânsia do controle e da gestão técnica surge como a atitude imediata e resposta para todo o tipo de problemas. Alimenta-se a si mesma para lá das épocas de fogos, com relatórios e planos de gestão e ordenamento, assentes na primazia e no crer de que a máquina e a organização tecnocrata e a indústria de raiz técnico militar são a panaceia da questão. Essa abordagem reflecte nada mais do que uma sociedade que deposita o seu futuro e a solução dos seus problemas, cada vez mais na especialização privada e lucrativa das funções em contraponto com as práticas e responsabilidades colectivas.

Esse credo cego no especialista e no perito, ameaça secundarizar no que toca ao combate aos incêndios o próprio papel especializado que é o dos bombeiros, os quais ainda que imersos dessa mesma lógica militar, não nascem e se sustêm pela mesma, mas antes pela prática colectiva do voluntariado. E as dificuldades que as corporações voluntárias hoje se deparam passam precisamente pelo desvalorizar dessa sua condição primordial na sua própria cadeia hierárquica, como pelo desvalorizar desse acto voluntário e anónimo numa sociedade que prefere delegar em vez de participar. No calor das chamas, como o Caldeirão se recorda há um ano atrás, que evidência mais cruel não tiveram as pessoas ao perceberem que lhes cabia a elas maiores conhecimentos dos terrenos para essa tarefa de combate, que bombeiros reféns do comandos inertes da dita protecção civil. Quantas lições mais haverá para perceber que a defesa e salvaguarda passa por uma implicação de todos, quer antes, como no próprio combate ao fogo, e que é nesse sentido que a prática colectiva do bombeiro voluntário deve ser conduzida e não no seu distanciamento especializado ou na sua uniformização a mais uma “força da ordem”.

Obviamente o facto da abordagem ao tema se centrar nos meios e na operacionalidade técnica, apenas acontece hoje porque o cenário onde esses actores surgem deixou de ter qualquer importância. Todo esse cenário, esse interior que arde anualmente, foi a reboque do desenvolvimento moderno abandonado. Depois das gentes que se foram, as terras e a floresta deixaram de ser vividas para serem apenas serem rentabilizadas no lucro da celulose, para ajudar a pagar o apartamento da cidade, ou rentabilizando um turismo rural em torno do que já não é rural.

E para quem restou nos montes e nas serras, ou para quem a eles escolheu viver, o seu dia-a-dia tornou-se cada vez mais isolado, tendo-se perdido o sentido de vizinhança e de auto-organização que fazia frente aos fogos, antes e depois de estes acontecerem. Uma vez mais, crentes no proteccionismo vindo de fora e não o que é gerado de dentro. Por isso caminhámos para uma desagregação colectiva com o território, tomado como um recurso meramente económico e não como um lugar para se viver amplamente, pelo que o carpir da desgraça do fogo privilegia as perdas do proprietário e não do território. Este, que será afinal a nossa mais rica identidade e a nossa comunhão com a natureza, não passa de pasto para incêndios. E com eles arderemos todos, se não invertermos definitivamente essa nossa forma de estar. Até lá continuaremos a enumerar e a reclamar mais meios de combate, ouvir especialistas e a apontar culpados entre todos, menos entre nós mesmos.

Filipe Nunes

Publicado no Diário do Alentejo, 19.07.2013

Imagem: LUSA; MARIO CRUZ retirado AQUI

Tomou este texto em parte inspiração no texto “Sobre el incendio que ha asolado el Alto Palancia y los incendios en general”  (Julho 2012) do Grupo por la defensa del territorio del Alto Palancia publicado na excelente Revista ARGELAGA e que pode ser lido aqui.

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