Braços Cruzados

Posted on 17 de Outubro de 2013

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Para que os braços cruzados se transformem em novo arremesso de pedras sobre esse charco de miséria em que nos afundamos. (…) Neste contexto de guerra social, passar do lamento fatalista ao otimismo desenfreado (sem freios e apartidário) é talvez o nosso maior desafio. Vivemos á demasiado tempo nesse impasse.

Não querendo reconhecer que vivemos aqui e agora num verdadeiro estado de guerra social, e insistindo que qualquer (re)solução só é possível pela garantia da paz social imposta pelo sindicalismo gasto e pela representatividade partidária, acabamos perpetuando essa ideia do lamento, do fado e do fatalismo português de tudo aguentar. Neste Outono regressam finalmente às ruas os momentos e as ocasiões de protesto para contrariar esse pessimismo.

Não me excluo desse pessimismo. Estou longe de sentir por estes lados uma reação coletiva e persistente no desejo de construir desde já alternativas a este sistema. A verdade é que passaram-se meses de apatia, desde a passeata fúnebre de 2 de Março de 2013 e a feira eleitoral de Setembro que nos pedia para não cruzarmos os braços. Contrario esse pessimismo com votos, agora sim, para que a agitação de há um ano atrás, que pôs nas ruas mais manifestantes que nos tempos quiméricos do 25 de Abril, possa surgir de novo. Para que os braços cruzados se transformem em novo arremesso de pedras sobre esse charco de miséria em que nos afundamos. Quando te põem as mãos no pescoço a cada dia que passa, já tão pouco é possível colar ao manifestante a imagem de violento. Ou sufocas ou reages.

Neste contexto de guerra social, passar do lamento fatalista ao otimismo desenfreado (sem freios e apartidário) é talvez o nosso maior desafio. Vivemos á demasiado tempo nesse impasse. E para o ultrapassar, sabemos que teremos que estar juntos para lá do evento agendado, surpreender com o protesto incontrolado, como ultrapassar o desenrascanço diário feito de cumplicidades e afinidades familiares, para experimentar soluções coletivas com demais afetados e com os desconhecidos e marginais com que sorrimos juntos nos protestos. As possibilidades que nascem nesses momentos de rua, podem por isso multiplicar-se e não é preciso muito para perceber que isso é possível. É na sociabilidade no dia a seguir ao protesto que estará certamente a desejada resposta ao fado miserabilista português.

Um dos enquadramentos possíveis do “problema da passividade em Portugal”, apontados no Blog Spectrum, refletir-se-ia no vazio de vida e de pessoas no espaço público. Um quadro social, marcado nas cidades pela ausência das relações de bairro, e que pode ser visto no Alentejo, sobretudo pela imposição provinciana dos modelos cosmopolitas às suas vilas e aldeias. No entanto, contrapondo essa imposição, a ruralidade pode hoje surgir como uma fonte de resistência (e não como um apelo saudosista), por lhe ser inerente precisamente essa energia de proximidade e sociabilidade local. Tirar fruto dessa vantagem, como pode ocorrer por exemplo a propósito de uma horta comunitária, demonstra que não falta espaço público para deixarmos a passividade de lado.

Claro que semelhante dinâmica poderá não passar de um inofensivo escape e passatempo, se não pretender dispensar a mediação e a ”familiaridade com os órgãos do estado”. O aspeto chave afinal, que tem evitado que os protestos – e como tal a nossa sociabilidade – assumam um outro nível. Sobre o credo cego na representatividade democrática, a resposta acabou de ser dada ontem mesmo nos patamares do poder autárquico, obrigando sapientes analistas a olhar ao significado da mais alta taxa de abstenção de sempre, apontado a contragosto, para lá da desculpa climatérica, o seu sentido anti-sistema. Mas este é ainda um sentido que não passará da persistente apatia portuguesa, servindo mesmo de argumentação a soluções totalitárias, se não se vier a revestir de uma outra e distinta lógica de participação. Aquela que à margem do estado sugira e experimente novas hipóteses coletivas e individuais à resolução direta dos problemas e em que finalmente deixemos de cruzar os braços.

Filipe Nunes

 Publicado no Diário do Alentejo, dia 18 Outubro 2013

Ilustração de Gui Castro Felga

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