António Ferreira de Jesus (1940-2013)

Posted on 9 de Novembro de 2013

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antonio

…/ protagonista activo de várias lutas pela justiça e pelos direitos de cidadania dos presos. Ele é hoje uma referência ética e cívica para os que não se deixam degradar pelo sistema, que não se atolam no lodaçal das drogas e dos tráficos, para os que não se vendem. /…

É com muita tristeza que informamos que o António Ferreira morreu esta 4ª-feira, dia 6 de Novembro.

Rebelde, libertário e um lutador dentro das prisões, o António tinha 73 anos e estava fora há apenas 1 ano e meio. Encontrava-se doente há já algum tempo, ainda que não se tenha chegado a descobrir exactamente o que tinha.

Morreu na casa onde vivia e não no hospital, sítio para onde não quis ir por se sentir como na prisão.

Para quem esteve perto dele, é gravemente nítido que o seu estado de saúde se alterou directamente por estar tantos anos preso, sofrendo as represálias de quem é um preso em luta e confrontando-se também com as dificuldades em adaptar-se à realidade da vida em “liberdade”, já tarde demais.

O seu funeral será no dia 11/11, 2ª-feira, às 14h em Portimão.

O António fica entre nós como um exemplo de resistência e determinação, mesmo perante as mais duras condições impostas pelo Estado.

Que possa estar agora em verdadeira Liberdade.

Saúde e Anarquia!

Os companheir@s do António.

collage

Sobre o António: texto de 2007 na antiga página de apoio e da campanha à sua libertação, onde poderão encontrar textos do nosso companheiro.

« Quem é António?

O nosso companheiro, nascido em 1940, num meio familiar economicamente pobre, não conformado com a desigualdade social a que estava submetido, pôs em pratica a sua rebeldia e foi detido pela primeira vez quando tinha 17 anos de idade. Já depois destes acontecimentos foi sequestrado mais três vezes pelo estado fascista (até 1974), e pelo actual estado democrático. No total já passou mais de 43 anos detido. Aproveitou o tempo de reclusão para ler, estudar por si mesmo e tomar maior consciência do mundo à sua volta. António é um libertário e um autodidacta.

A leitura de várias obras e o contacto directo com a realidade prisional fizeram de António um cidadão esclarecido e preocupado socialmente, tornando-se protagonista activo de várias lutas pela justiça e pelos direitos de cidadania dos presos. Ele é hoje uma referência ética e cívica para os que não se deixam degradar pelo sistema, que não se atolam no lodaçal das drogas e dos tráficos, para os que não se vendem.

Ao mesmo tempo que conquistou a admiração dos seus companheiros, António Ferreira foi sendo o alvo preferencial de alguns corruptos que se albergam sob a protecção do sistema prisional do Estado. O seu nome está associado a várias denúncias e é mesmo testemunha de processos judiciais envolvendo mortes suspeitas de detidos e actividades ilícitas de funcionários e directores. Corajosamente, denunciou violações dos direitos humanos e corrupções. A sua permanência dentro da prisão implica um risco eminente à sua vida, porque há já muito tempo que recebe ameaças de morte e sofre terríveis castigos.

Como pessoa que nunca deixou de reivindicar os seus direitos e convicções, que nunca se deixou amordaçar e que sempre manteve uma atitude combativa dentro da prisão, o António tem sofrido um tratamento muito discriminatório por parte de todo o aparato da “justiça”. No seu caso, não lhe estão a ser feitos os devidos cúmulos jurídicos (acumulação das penas para que o total nunca ultrapasse a pena máxima de 25 anos que a lei prevê), nem somas de penas, e “interpretando” as suas leis de uma outra maneira, há 4 anos que o António já poderia estar em liberdade condicional! Até 2007 já lhe foram atribuídos oficialmente 3 datas de “meio da pena” que correspondem a 3 diferentes “fórmulas matemáticas”, o que é irregular. Já não existem sequer razões para negar-lhe as precárias, mas eles inventam-nas.

O que não podemos permitir é que, por processos indirectos, o sistema faça pender sobre ele uma pena de prisão perpétua encapotada.

Actualmente, e após ter passado estes últimos anos pelos Estabelecimentos Prisionais de Caxias, Vale de Judeus e Paços de Ferreira, António encontra-se detido no E.P. de Pinheiro da Cruz, sujeito à classificação por parte da Direcção Geral de Serviços Prisionais (D.G.S.P.) como “preso perigoso”, e sujeito a escolta permanente (G.I.S.P.) em todas as suas deslocações.

O perigo, neste caso, é a dignidade e espírito crítico do António.»

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