Editorial da Revista Argelaga (Nov’13)

Posted on 26 de Novembro de 2013

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Crescimento económico. Anti-desenvolvimento. Território, defesa do território. Conflitos laborais e crítica ao Trabalho. Produtores e vida consumista. Rural e Urbano. Campo e Aglomerações.  Algumas reflexões no EDITORIAL do Nº 3 da Revista ARGELAGA de Novembro de 2013 (AQUI)

cropped-banner_argelaga« O crescimento económico baseia-se na mundialização das finanças e na mercantilização do espaço público ou comum, incluindo a dos seus usos até aqui livres. O território, como suporte de grandes infra-estruturas (e também como segunda residência, espaço lúdico, paisagem, reserva, aterro, plataforma logística, fonte de produção de energia…) converte-se na peça chave da mercantilização total.

A questão social por excelência não se coloca desde o campo laboral, pois o trabalho é secundário na valorização (na conversão de um bem em mercadoria), mas sim desde o território, porque a construção de um espaço apropriado é fundamental na constituição do mercado global. Mas isso é também o seu ponto fraco. A defesa do território questiona directamente a natureza da globalização e obstrui o seu funcionamento. É pois o factor principal da moderna luta de classes. O conflito territorial configura uma nova classe, uma classe proletária que se forma na medida em que se exclui, na medida em que dissolve essa valorização. Na medida em que não consume, não vota, não trabalha por um salário; na medida em que se auto abastece, cuida da sua saúde e se auto educa. Na medida em que se ruraliza, ou ainda melhor, em que estabelece relações directas com o campo, que cria uma colectividade no campo ou ligada com o mesmo.

A partir do próprio campo, ou desde o que sobra dele, a defesa do território não constitui “um mundo”, um lugar da consciência, habitado por um sujeito histórico. O habitante do campo perdeu a memória, e, como tal, encontra-se fora da história. Não existe como comunidade territorial real dentro de um espaço abstracto oficial, em conflito com ele. Já houve, mas já não há. O rural é hoje subsidiário do urbano. Está de alguma forma urbanizado. Terá de recrear-se para existir realmente e isso não pode fazer-se sem opor-se à urbanização, sem desurbanizar. Paradoxalmente, isso não significa destruir o urbano, já destruído, senão voltar ao realmente urbano, à ágora. A luta anti urbanizadora é tanto una luta pelo campo, como pela cidade.

 Paradoxalmente, isso não significa destruir o urbano, já destruído, senão voltar ao realmente urbano, à ágora. A luta anti urbanizadora é tanto una luta pelo campo, como pela cidade.

 A primeira contradição do combate em defesa do território surge pelo facto da concentração da população nas aglomerações ou sistemas urbanos, onde os conflitos sociais tendem a mostrar-se como laborais, dentro da economia, sem questiona-la. A força do trabalho compete com a maquinaria, a poupança e a eficiência, pelo que a taxa de exploração pode aumentar sem que o faça necessariamente a mais-valia. Isto é assim porque o “valor acrescentado” à mercadoria não provêm dos baixos salários, da sobreexploração, mas sim da tecnologia e da híper mobilidade. Os proprietários da força de trabalho, os operários, não são praticamente necessários como produtores, mas são, e muito, como consumidores. Por um lado tendem a ser expulsos do mercado de trabalho, logo a desclassar-se; pelo outro tendem a ser integrados no consumo, logo a atomizar-se e massificar-se. Por isso, já não combatem contra a exploração, mas sim contra a exclusão. Tão pouco rejeitam o estilo de vida consumista; simplesmente não têm outra opção que esforçar-se em mantê-lo.

O conflito laboral não transcende imediatamente a ordem porque não questiona a dominação, nem a forma de vida sob a dominação. É um conflito urbano, que obedece ao modo de vida urbano inteiramente submetido aos imperativos da economia global. No processo de descomposição da sociedade de massas, que é uma sociedade urbana, produzem-se uma multitude de conflitos laborais e outros de índole similar (sobre pensões, prestações sociais, hipotecas, pequenas inversões…) intranscendentes por si mesmos, contingentes, anedóticos. Ao reivindicar algo perfeitamente plausível no quadro do sistema, pede-se que o sistema funcione melhor, que a carga esteja melhor repartida. O conflito laboral não tem solução extra laboral. Nenhuma organização, e muito menos una comunidade de luta, nasce dele. É repetitivo, não acumulativo. Não questiona o sistema capitalista, nem objectiva nem subjectivamente, antes reivindica um sítio mais folgado dentro dele, com melhores salários, contractos seguros, horários mais reduzidos e condições mais gratas. Tudo muito legítimo, mas se não se actua contra o sistema não se forma uma classe; a classe nasce na luta contra ele. E, pelo contrário, não há uma verdadeira luta de classes sem uma classe lutadora, mas não pode existir tal classe sem consciência de si mesma. O conflito laboral não aporta essa consciência. No geral, sem uma recusa prévia das condições de vida impostas, sem uma vontade de segregação, sem uma separação entre “mundos”, não há questionamento possível, nem consciência que valha. Dadas as actuais condições industriais e financeiras, hoje a classe explorada ou é anti-desenvolvimento (n.t.: antidesarrollista, no original) ou não é classe. Os conceitos de mercadoria, miséria, riqueza, exploração, exclusão, classe, etc., irão se redefinir desde a óptica do anti-desenvolvimento.

O conflito laboral não tem solução extra laboral. Nenhuma organização, e muito menos una comunidade de luta, nasce dele. É repetitivo, não acumulativo. Não questiona o sistema capitalista, nem objectiva nem subjectivamente, antes reivindica um sítio mais folgado dentro dele.

 A verdadeira crítica do regime industrial e financeiro apareceu nas aglomerações como crítica da vida quotidiana (que é crítica do patriarcado e crítica ecológica), desligada tanto de uma base territorial como de uma base laboral. Essa separação da praxis é um problema maior que só pode superar-se mediante a unificação da crítica teórica, globalmente anti-desenvolvimento, com os conflitos urbanos e territoriais. O factor consciente proporciona-o a própria iresolubilidade do conflito no quadro do sistema. Apenas nesse sentido, as derrotas podem ser vitórias.

As organizações, formais o informais, defensivas ou construtivas, hão-de fixar objectivos a curto prazo que superem os limites do sistema, de acordo com uns princípios estratégicos adequados. Para isso a luta real obriga a prescindir dos órgãos de integração como partidos, associações legalistas e sindicatos. Também há-de desconfiar dos movimentos sociais que não os questionem e prevenir-se contra os seus partidários. Há-de adoptar estruturas horizontais, assembleárias, anti-estatistas, impedindo determinados mecanismos de obstrução e de delegação. No instante em que o faça, poderá transformar-se numa luta pela comunidade urbana anticapitalista.

A violência de dita luta não determina a sua radicalidade; é cem vezes preferível a astúcia. Se não estiver em linha com a autodefesa, a violência não é mais que uma afirmação de impotência: impotência em organizar-se autonomamente, impotência em dotar-se de meios eficazes, impotência em separar-se de condicionamentos políticos e sindicais, por não saber onde jogar, por onde ir. É um acto de pura negação, desprovido de paixão criadora. Recusa-se um sistema, mas não se afirma outro. Não se constrói sobre a pura negatividade. O pior é que derive em estética individualista e trate de justificar-se assim, caminhando em círculo e regressando ao princípio. A cólera da insatisfação não pode transitar por caminhos distintos dos da consciência, que são os da praxis diária. A resposta não pode ir separada do objectivo e este não pode limitar-se à destruição.

A luta social urbana irá tratar de assimilar a problemática territorial e ver que o campo e a metrópolis são cenários de um mesmo combate. Essa confluência implica a assimilação de certos elementos críticos novos associados à formulação de outro tipo de direitos (à alimentação saudável, á agua, ao território, á aprendizagem livre, à atenção e cuidados solidários, à assembleia, à defesa…). Tratar-se-ia menos de um novo código de leis que de uma soma de costumes livres a reinstituir. Os elementos acima aludidos mais evidentes são a crítica do consumismo e a crítica da política. O principal é a crítica do trabalho assalariado. Reunindo todas as críticas em uma, a questão da despossessão moderna será de novo levantada. O anti-desenvolvimento (n.t.: antidesarrollismo) deriva dela.

O novo sujeito irá encontrar o seu espaço, fazer o seu espaço (o seu mundo), tanto no território como na aglomeração. Irá desertar da aglomeração, e ou bem que reocupa o território, ou bem que transforma-a em território. Para lá dessa deserção e dessa mudança, que nunca acontecerão sem luta (pelo território, pela cidade), constituir-se-á como classe. Mas não se formará no lugar de trabalho, que é um não lugar, mas sim na perspectiva do seu abandono. Não se constrói no alojamento, mas sim na ruina.»

Em torno do tema, ver artigo de Miguel Amorós  (do colectivo da Argelaga) traduzido na REVISTA ALAMBIQUE nº 4 (2012):  “Nós, Contra o Desenvolvimento

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